Tag Archives: Marinha Portuguesa

Mais dois NPO

Consegui ler a entrevista do presidente da West Sea (ex-ENVC) ao “Jornal de Negócios” e posso agora juntar mais alguns detalhes interessantes à informação que já tinha dado no meu post anterior sobre a construção de dois navios de patrulha oceânica (NPO) para a Marinha.

Carlos Martins adianta que a sua empresa está a a trabalhar com a Edisoft, a EID e a Marinha para relançar o programa em Março do ano que vem, aproveitando os materiais que o Estado já tinha adquirido antes do cancelamento do contrato com os ENVC. Ele estima que os trabalhos durem entre dois anos e dois anos e meio, o que significa que os navios poderão entrar ao serviço em 2017 ou 2018.

Quanto a custos, cada NPO nunca ficará por menos de 35 milhões de euros.

Outra novidade importante é a assinatura, na semana passada, de um protocolo com a Direcção-Geral de Armamento e Infra-Estruturas de Defesa para a venda do NPO no estrangeiro. Segundo o presidente da West Sea, “a ideia é tentar comercializar o navio e os serviços associados, principalmente nos países de língua oficial portuguesa, mas também noutros que estejam disponíveis para comprar este tipo de navio”. Carlos Martins espera uma primeira encomenda do estrangeiro já em 2015, sendo que cada navio poderá custar entre 30 e 35 milhões de euros, dependendo do nível de sofisticação dos equipamentos pedidos.

Anúncios

Algo mais sobre os navios dinamarqueses

post que escrevi há poucos dias sobre a compra de navios patrulha dinamarqueses para a Armada é, de longe, o mais lido neste blogue. Na sexta-feira, “A Espada e o Escudo” teve quase 800 visualizações e mais de 500 visitantes de dezenas de países, a esmagadora maioria dos quais leram ou passaram os olhos por esse texto.

Não esperava, de todo, este nível de interesse pelo tema, mas ainda bem que aconteceu.

Assim sendo, e porque o post deu origem a vários comentários, que desde já agradeço, achei que deveria escrever algo mais sobre este assunto.

Os comentaristas mostram-se muitos críticos da compra dos Flyvefisken, não tanto por ela mesma, mas pelo que representa: o abandono do programa dos Navios de Patrulha Oceânica (NPO); o fim dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) e do Arsenal do Alfeite enquanto centros estratégicos de manutenção da capacidade portuguesa de fazer construção naval militar; a degradação da capacidade da Armada para fazer o que lhe compete, sendo que se lhe pede cada vez mais.

No fundo, tudo isto se sintetiza em duas questões: como é que Portugal pode ter o Mar como desígnio estratégico de primeira grandeza se, depois, a Marinha substitui navios de 40 anos por outros com 20?

Como é que sucessivos governos proclamam o nosso destino atlântico e, depois, nem sequer conseguem garantir que o país tenha capacidade financeira e técnica para construir uma dúzia de navios de patrulha?

Obviamente, a resposta às duas perguntas é negativa.

O problema, como todos sabemos, é de meios e de vontade política.

A verdade é que gastar dinheiro com as Forças Armadas não dá votos – pelo contrário, até os tira, especialmente numa altura de profunda crise económica como é a actual. Logo, os políticos, independentemente da sua cor, têm muito pouco interesse em dar às Forças Armadas aquilo que é necessário para as suas missões.

Assim, vista por este prisma, a decisão de investir 25 ou 30 milhões de euros na compra de quatro navios usados, na altura em que se dá, não é assim tão negativa. Não tenhamos ilusões: a única alternativa real era pura e simplesmente deixar a Armada abater os patrulhas e as corvetas sem substituição, o que seria muito grave.

Pessoalmente, confesso que fiquei surpreendido por saber que ainda há uma tal quantia para gastar em navios e a vontade de a empenhar nisso.

É o estado a que chegámos.

 

Um incidente nas Selvagens

Ilhas Selvagens location distances.svg
Ilhas Selvagens location distances” por WilltronFile:Mapa Canarias.svg, File:Islas Selvagens location map.svg and File:Portugal Madeira location map.svg. Licenciado sob CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons.

Dois defensores da independência das ilhas Canárias desembarcaram nas ilhas Selvagens com o objectivo aparente de protestar contra a prospeção petrolífera nas águas das Canárias.

Dito assim, percebe-se logo a incongruência do acto. Então protesta-se em território português contra algo que está a ser feito em águas espanholas, com autorização das autoridades de Madrid?

Os independentistas da Alternativa Nacionalista Canária (ANC) dizem que querem chamar a atenção dos portugueses para os perigos da exploração petrolífera naquela zona contígua a águas nacionais, mas tudo indica que o motivo principal para esta acção é outro: tal como aparece na página na Internet da ANC, os separatistas defendem que as Selvagens estão dentro da Zona Económica Exclusiva das Canárias:

“Los militantes de ANC que están en las Islas Salvajes, pretenden que se tome consciencia de que éstas se encuentran a 150 millas de Madeira y a menos de 90 millas náuticas de Canarias. Una milla marina o náutica es igual a 1,852 kilómetros, de forma que las encontramos a tan sólo poco más de 150 kilómetros, por lo que aun trazando una mediana entre Madeira y Canarias, las Salvajes, quedarían dentro de la Zona Económica Exclusiva (ZEE) del archipiélago.”

Em suma: embora não o assuma com total clareza, a ANC defende que as Selvagens pertencem às Canárias, e que, por isso, teriam de ser parte integrante do estado independente que desejam criar. O facto de os manifestantes se terem apresentado nas Selvagens com uma bandeira canária dá a entender isso mesmo.

Mesmo que não se queira dar demasiada importância a este incidente (que não tem), não deixa de ser óbvio que a resposta portuguesa tem ser mais rápida. Enviar um navio da Armada, que demora meio dia a chegar, é não só ineficaz como gerador de situações potencialmente ridículas para as autoridades nacionais e para o país.

Pela falta de resposta aérea, presume-se que não haveria um helicóptero da Força Aérea estacionado em Porto Santo, o que também não é muito compreensível. É nestas alturas que se torna notório o quão curta é a “manta” das Forças Armadas. Por isso, e porque as presenças não autorizadas nas ilhas se têm repetido com alguma frequência, talvez seja altura de se instalar um pequeno destacamento militar permanente nas Selvagens. Meia dúzia de fuzileiros devem chegar. O que não chega, de certeza, são os cinco guardas da Natureza que estão lá instalados.

Nem sequer as visitas ocasionais do Presidente da República.

Portugal compra patrulhas à Dinamarca

"RDN P555 Storen 1" by Kim Storm Martin, www.notatia.dk - iloapp.notatia.dk/data/_gallery/public/0/1216861029.jpg. Licensed under Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 via Wikimedia Commons - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:RDN_P555_Storen_1.jpg#mediaviewer/File:RDN_P555_Storen_1.jpg

Navio patrulha “Storen”, da Marinha Dinamarquesa (classe Flyvefisken), desarmado em 2010 após 9 anos de serviço. Foto: Kim Storm Martin http://www.notatia.dk -iloapp.notatia.dk/data/_gallery/public/0/1216861029.jpg.

É oficial: até ao final do ano, Portugal vai comprar quatro navios patrulha à Dinamarca. A informação vem da boca do próprio chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), numa longa entrevista à RTP.

O almirante Macieira Fragoso não especificou quais as embarcações que vão ser adquiridas, mas não é muito arriscado avançar que serão os patrulhas das classe Flyvefisken (“Peixe Voador”, em português).

Ao todo, foram construídos 14 navios deste tipo entre os anos de 1985 e 1995. Três foram vendidos à Lituânia e um mantém-se ao serviço da Dinamarca. Os dez restantes foram retirados do serviço entre 2006 e 2012, o que significa que têm tempos de serviço que oscilam entre os 15 e os 22 anos. Isto vai de encontro à afirmação do CEMA de que os patrulhas que Portugal irá adquirir ainda terão mais 15 anos de vida útil.

Sem conhecer o estado específico de cada embarcação e o número de dias em que estiveram no mar (e elas andaram por mares bem difíceis!), o ideal seria que viessem os quatro navios mais novos da segunda série da classe: Gribben (1993); Ravnen (1994); Skaden (1994); Viben (1995). Falo da segunda série porque houve três, muito embora as diferenças entre elas se situem apenas ao nível da propulsão.

Outra questão – e vital – é o “recheio”. O almirante Macieira Fragoso revelou que os navios custarão 30 milhões de euros, o que considerou um excelente negócio, mas também mencionou que será necessário actualizá-los. Presume-se que esse será um custo à parte, o que elevará bastante o preço final. Mesmo assim, e tendo em atenção que só o NRP Viana do Castelo custou mais de 50 milhões de euros, não se pode dizer, para já, que a opção não é económica…

No que diz respeito às características técnicas gerais, à partida tudo parece bater certo: os Flyvefisken precisam de poucos tripulantes (19 a 29, consoante a configuração), estão preparados para enfrentar o pior do Atlântico (ou não tivessem patrulhado os mares da Gronelândia) e, graças ao sistema Modular StanFlex, podem ser configurados facilmente para diferentes missões, com diferentes armamentos. É claro que a Armada irá usá-los “só” para patrulha, o que não exige mais que um canhão e algumas metralhadoras, mas é sempre bom saber que, com uma simples mudança de contentor, estes navios podem passar a ter mísseis Harpoon e Sea Sparrow, que já são usados pela Marinha nas suas fragatas.

Enfim, o negócio não parece ser mau, mas tudo dependerá do estado em que os dinamarqueses mantiveram os navios.

Mísseis para os submarinos portugueses

Harpoon lançado por submarino

Harpoon lançado por submarino

Os submarinos da Marinha Portuguesa vão passar a ter mísseis Harpoon no final deste ano.

A notícia é dada pela Jane’s, que refere que sete RGM-84 Block 1 estão a ser modernizados para Block 2 na Holanda, tendo um outro já sido convertido no final de 2003. Isto quer dizer que a Marinha decidiu transformar alguns dos mísseis que tinha adquirido para as fragatas, em vez de comprar novos.

Os polémicos submarinos U209 PN, construídos pelos estaleiros alemães ThyssenKrupp, já estavam dotados de origem com a capacidade de disparar mísseis a partir dos tubos lança-torpedos, mas essas armas nunca tinham sido disponibilizadas. Agora, cinco anos depois da entrega do NRP Tridente, essa carência vai ser resolvida.

Pela primeira vez, a Marinha vai ter a capacidade de atacar alvos em terra a partir de uma plataforma submersa. Os Harpoon têm um alcance superior a 120 quilómetros.

Sonhos de fim de Verão

JLSS_Karel_doormanQue jeito que isto dava à Marinha Portuguesa…

Poder submarino

Aqui, em Portugal, os submarinos são quase sempre motivo de chacota e/ou protestos mais ou menos indignados devido ao seu elevado custo e aos negócios pouco claros que envolveram as aquisições mais recentes.

Para muitos comentadores, os submarinos são um luxo desnecessário, e mais valia que o país nunca os tivesse comprado ou que vendesse os que tem.

No entanto, qualquer estado com um espaço marítimo significativo a seu cargo, como é o nosso, não pode deixar de ter submarinos. Quase nenhum país nessas circunstâncias os dispensa (e são mais de 40), e Portugal já os tem há quase 100 anos.

Sim, 100 anos.

Com crises e sem elas, com as contas mais folgadas ou à beira da bancarrota, dezenas de governos consideraram sempre que Portugal precisava de submarinos. Porque será?

Uma das respostas pode ser documentada com a foto seguinte.

O antigo navio da marinha norte-americana Kilauea afunda-se depois de ter sido atingido por um torpedo disparado pelo submarino australiano Farncomb.
Foto: Australian Defence

Isto é o que um submarino pode fazer. Com um único torpedo.

Os U209 PN da Marinha Portuguesa podem transportar doze.

Para uma visão ainda mais esclarecedora, temos este exemplo.

É para isto que servem as armas de guerra: destruição em grande escala. Se as coisas correrem como quase toda a gente deseja, essa destruição não passa dos exercícios com velhos navios vazios. Todavia, a ameaça permanece. E onde há ameaça há dissuasão.

Como arma dissuasora, não há muitas que sejam mais convincentes do que um submarino. E mais baratas, quando se trata de um modelo com propulsão a diesel e eléctrica.

Quando submerso, ele é invisível e de detecção muito difícil, especialmente se tiver AIP. O seu poder de destruição é enorme, especialmente quando é dotado de torpedos modernos, como o Mk 48 e o Blackshark, e de mísseis de superfície, como o Harpoon.

Não foi por mera simpatia que a Marinha dos EUA convidou a Armada a enviar um dos novos submarinos portugueses ao exercício naval realizado a propósito do bicentenário da Guerra de 1812, entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Na realidade, os norte-americanos queriam conhecer de perto aquele que é considerado por muitos especialistas o melhor submarino não-nuclear do mundo, o U209 PN (que, na realidade, é um U214).

É que exercícios anteriores já lhes demonstraram repetidamente que um único submarino convencional bem tripulado pode pôr no fundo um porta-aviões, a arma suprema (por enquanto) do poder naval norte-americano.

Nos últimos anos tem-se falado muito da importância que o mar tem para Portugal. De repente, descobriu-se que temos uma Zona Económica Exclusiva (ZEE) enorme, e que poderá ser ainda maior com a extensão da plataforma continental. Fala-se muito das grandes riquezas que poderemos tirar desse mar e do fundo oceânico, mas do que quase ninguém fala é da necessidade de os proteger e vigiar. Para isso, são necessários aviões, navios de superfície e submarinos.

Sem esses meios, toda a conversa de virar Portugal para o mar e criar uma nova economia com base em recursos marinhos não passa disso mesmo – conversa.

Incêndio na Baptista de Andrade

Corveta Baptista de Andrade (Marinha Portuguesa)
Foto: Departamento de Defesa dos EUA

A corveta Baptista de Andrade, da Marinha Portuguesa, teve um incêndio a bordo na última madrugada. O fogo deflagrou na casa das máquinas, uma zona vital do navio, mas foi controlado em meia-hora, segundo a Armada. A Baptista de Andrade pôde prosseguir pelos seus próprios meios para Sines, onde oito marinheiros foram levados para o hospital, devido a intoxicações. Todos eles tiveram alta esta manhã.

Não há nenhum dado que nos permita concluir que este acidente está relacionado com a idade provecta do navio (38 anos), até porque a Marinha tem um excelente registo de segurança, mas também não vale a pena esconder o óbvio: as corvetas das classes Baptista de Andrade e João Coutinho já não deviam estar ao serviço. Para além de serem obsoletas, exigem recursos humanos e materiais desproporcionados às missões para as quais estão destacadas (patrulha e busca e salvamento).

Nesta altura, as sete embarcações já deviam ter sido substituídas pelos famigerados navios de patrulha oceânica (NPO), mas esse programa de reequipamento está parado e não se prevê se e quando será retomado. Tema para outro post.