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Trovão a Leste

Substituição das G3 adiada… mais uma vez

 

Espingarda automática G3a3
Foto: Wikimedia

Se não pode reequipar as Forças Armadas por falta de dinheiro, este Governo pelo menos não deixa dúvidas no ar. Depois do cancelamento da encomenda dos helicópteros NH90, de que já falámos aqui, agora foi a vez do concurso para a substituição das armas ligeiras ser anulado. Estamos a falar das espingardas automáticas G3, das pistolas Walther P38 e das metralhadoras ligeiras HK21 e M60. Segundo o jornal “Público”, o programa envolvia uma despesa de 80 milhões de euros.

Este processo já se arrastava há bem mais de uma década e padeceu do mal crónico que tem afligido o reequipamento das Forças Armadas: os ramos identificam as necessidades; os Governos validam-nas a autorizam a sua satisfação via Lei de Programação Militar; as verbas atribuídas para essa satisfação são cativadas ad aeternum e nada se compra. A lei diz que Portugal vai adquirir os meios x, y e z, mas o dinheiro não aparece. A ficção é mantida durante tanto tempo quanto o pudor permite, ou até que uma qualquer urgência obrigue a uma tomada de atitude: cancelamento puro simples neste caso; compras e empréstimos apressados noutros.

O problema, mais uma vez, está na incapacidade de sucessivos governos de assumirem prioridades de forma clara. Promete-se às Forças Armadas aquilo que se não pode cumprir e os generais fingem que acreditam. Resultado: a compra de novos equipamentos não é feita de forma escalonada e planeada, e a obsolescência dos que existem dá-se num espaço muito concentrado de tempo, o que torna ainda mais difícil a sua substituição. Portugal ainda anda a ponderar, e a adiar, a compra de armas pessoais de calibre 5,56 mm, quando quase todos os países da NATO já fizeram essa transição há décadas. Ao mesmo tempo, tem que substituir mais de metade da sua esquadra naval e comprar aeronaves que substituam os aviões de transporte C-130 e os helicópteros Alouette III. E  já para não falar de meios que nunca tivemos, mas que são considerados muito importantes, como o Navio Polivalente Logístico.

Do mal o menos: no caso das armas ligeiras, o cancelamento tem a vantagem de permitir que se faça uma reavaliação da bondade da adopção do calibre 5,56. As armas desse tipo possibilitam um volume de fogo muito superior ao das que têm o calibre 7,62, como é o caso da G3 das forças armadas portuguesas, mas os combates no Iraque e no Afeganistão vieram mostrar que as munições 5,56 não têm um efeito suficientemente incapacitante a distâncias mais elevadas. Em linguagem mais crua e dura: as balas deste tipo tendem a atravessar o corpo humano sem se fragmentarem, o que permite à pessoa atingida continuar a combater.

É por isto que há um debate cada vez mais intenso sobre as vantagens e desvantagens dos dois calibres, com muitos especialistas a defenderem um regresso ao 7,62 e outros a defenderem a adopção de um calibre intermédio, como o 6,5 mm. Enquanto não estiver absolutamente claro que o padrão da NATO vai continuar a ser a o 5,56, o melhor é esperar. É verdade que as G3 portuguesas têm todas 30 ou 40 anos, na melhor das hipóteses, e que não permitem a instalação das miras e lanternas que caracterizam uma arma moderna, mas também é certo que continuam a ser armas muito fiáveis e eficazes. Além disso, existem em abundância nos depósitos das Forças Armadas.

Se ainda houvesse fábricas de armas ligeiras militares em Portugal, também se podia optar por algo semelhante ao que a Noruega fez: modernizar as velhas G3, transformando-as em armas quase irreconhecíveis. Como não há, resta esperar.

Soldado norueguês empunhando AG3
Foto: Exército Americano

 

Cisão transatlântica

As relações transatlânticas já viram melhores dias, mas também já viram piores (durante a presidência de George W. Bush). No longo prazo, as perspectivas não são famosas, à medida que o foco estratégico dos Estados Unidos se vira para Oriente.

Agora, um discurso do secretário da Defesa britânico, esmiuçado pela AOL Defense, põe as coisas em pratos mais limpos do que é costume. Basicamente, Phillip Hammond diz aos outros membros europeus da NATO para se deixarem de queixinhas e começarem a fazer o que é necessário para garantir a segurança da Europa.

Hammond assume mesmo que vai haver uma repartição de tarefas, e que isso é bom: os EUA vão lidar com a China e o Pacífico; a parte europeia da NATO vai ter de cuidar do seu quintal com pouca ou nenhuma ajuda do outro lado do Atlântico.

O problema é que os europeus não estão disponíveis para gastar mais com a Defesa, bem pelo contrário. A própria Grã-Bretanha, que tanto bate no peito pelo mão do seu secretário, está a realizar um conjunto de cortes brutais nesta área. 

Assim sendo, não se vê como é que vai ser feita a quadratura do círculo. As necessidades de segurança vão aumentar nos próximos anos, como é fácil de perceber, e os meios para as suprir são cada vez menores, porque os políticos tentam desesperadamente tapar os buracos desse enorme náufrago chamado “Modelo Social Europeu”.

Algo me diz que vamos ficar com pouco das duas coisas – pouca segurança e pouco Modelo Social Europeu.

O estranho caso do avião turco

F-4 Phantom da Força Aérea da Turquia
Foto: Jerry Gunner

Estive tentado a escrever sobre este assunto mais cedo, mas ainda bem que não o fiz. Parafraseando o Sr. Rumsfeld, “há desconhecimentos desconhecidos” sobre o que se passou ao largo da costa síria na sexta-feira passada, embora eles agora sejam menos do que eram há umas horas.

O que parece certo é que um RF-4 Phantom da Força Aérea Turca estava a voar muito perto da região costeira de Latakia quando foi abatido por fogo anti-aéreo sírio. Os turcos reconhecem que o avião entrou no espaço aéreo do país vizinho, embora por engano, mas garantem que o aparelho foi derrubado por um míssil quando já se encontrava na zona internacional; por seu lado, o governo de Damasco afirma que o RF-4 estava a menos de 1200 metros da costa, a voar muito baixo, de tal modo que foi abatido por artilharia anti-aérea, após detecção visual, sem recurso a radar (BBC).

O que menos importa aqui (excepto à luz do direito internacional) é se o aparelho foi abatido dentro ou fora do espaço aéreo sírio, com ou sem aviso. A Turquia admitiu que houve uma violação, e quando ela ocorre num país em guerra civil, onde há pilotos a desertarem, não se pode esperar que os artilheiros de serviço perguntem primeiro e disparem depois. Mais significativa é a altitude a que o avião voava: se estava alto, e foi derrubado por um míssil, a versão turca do erro de navegação é mais defensável; se estava a 100 metros de altitude, à vista de terra, e foi abatido por metralhadoras, como dizem os sírios, facilmente se percebe que o RF-4 estaria ali com um fim bem definido e pouco inocente – testar as defesas aéreas e/ou recolher informação electrónica sobre o sistema de comando e controlo da Síria. Em suma, a espiar.

Esta última versão dos acontecimentos parece ser bem mais credível. O RF-4 é precisamente um avião de reconhecimento, modernizado com electrónica israelita muito recente. Além disso, tem um piloto e um navegador, o que faz com que seja difícil acreditar que se tenha “perdido no caminho”. Mais: a aeronave derrubada não estava só; como é habitual, voava em parelha com outro RF-4, cuja tripulação certamente teria percebido que haveria um erro de navegação.

O governo de Ancara não quer uma guerra com a Síria. O vice-primeiro ministro, Bulent Arinc, disse que o acto sírio “não ficará sem castigo”, mas tudo indica que a declaração é um pro forma para consumo interno, mesmo que os sírios continuem a alvejar aviões turcos. Significativamente, a declaração não veio da boca do primeiro-ministro, Tayyip Recip Erdogan, o que, em termos diplomáticos, lhe retira quase todo o peso. Além disso, a Turquia não pediu uma intervenção da NATO ao abrigo do artigo 5.º do tratado da aliança, que implicaria uma retaliação militar conjunta, mas antes ao abrigo do artigo 4.º, que apenas fala de consultas caso um dos estados-membros sinta que “a sua integridade territorial, independência e segurança estão ameaçadas”.

Todavia, isto não significa que não haja um perigo sério de escalada militar entre os dois estados. A Turquia está a apoiar os rebeldes que lutam contra o regime do presidente Bashar Al-Assad, o que predispõe o governo de Damasco a tomar atitudes cada vez mais agressivas face ao vizinho. À medida que a posição deste se vai debilitando, aumenta também a possibilidade de um acto desesperado, que mergulhe a região numa guerra generalizada.

Perante tudo isto, o governo e as forças armadas da Turquia têm de obter informação muito precisa sobre o que se passa do outro lado da fronteira do ponto de vista militar, até porque ninguém pode pôr de lado a possibilidade de uma intervenção da NATO, por muito que Obama e os aliados a recusem. O grande medo é que não seja possível conter o conflito interno sírio, e que seja necessária uma grande operação defensiva e/ou ofensiva face ao regime de Assad. Em qualquer dos cenários é necessária muita informação operacional prévia. Por isso, correm-se riscos, que, às vezes, resultam em tragédias e embaraços. Tenha sido ou não esse o caso do RF-4, é certo que, no lado turco, alguém está a assumir esses riscos.