Category Archives: Médio Oriente

Guerra civil na Síria V

A Reuters acaba de anunciar: a cidade fronteiriça síria de Jarablus foi tomada pelos rebeldes, após as forças do Governo a terem abandonado.

A confirmar-se a notícia (ela vem dos próprios rebeldes), a queda da dinastia Assad deve estar por dias.

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Guerra civil na Síria IV

Já tinha dado conta dela através do Twitter, mas acho que vale a pena colocá-la aqui. Para quem quer perceber melhor o que se passa na Síria, esta apresentação do Institute for the Study of War dá uma visão sintética bem estruturada dos grupos da oposição. Vale a pena ver.

Atentado na Bulgária

 

O ataque bombista de hoje contra turistas israelitas na Bulgária é o mais grave de uma série de atentados que têm ocorrido este ano, mas que têm sido pouco notados.  O primeiro-ministro de Israel já veio culpar o Irão pelo ataque, o que pode parecer apressado à primeira vista, não fosse o facto de os serviços de antiterroristas de Tel Aviv andarem a lançar alertas nesse sentido desde, pelo menos, Fevereiro.

Benjamin Netanyahu não parece ser o tipo de chefe de governo que vá aceitar isto sem retaliação. No pior dos casos, este atentado pode ser a desculpa que os “falcões” da coligação governamental (e há-os bem mais radicais do que o primeiro-ministro) precisavam para impor um ataque de larga escala ao Irão. Na perspectiva mais realista, creio que a Mossad vai receber mais algumas “missões especiais” nos próximos meses – ou não andasse ela já tão ocupada por aquelas bandas.

 

Guerra civil na Síria III

Os acontecimentos estão a precipitar-se. O fim do regime de Bashar Al-Assad pode vir bem mais cedo do que se pensava há dias. O meu cálculo de um mês como prazo máximo para a queda do governo do partido Baath parece cada vez mais válido.

Guerra civil na Síria II

As forças fiéis ao governo sírio não estão a conseguir desalojar os rebeldes de Damasco. Como disse aqui, se o não conseguiram fazer até agora, o regime tem os seus dias contados, mesmo que os rebeldes assumam que ainda não são suficientemente fortes para derrubar Bashar Al-Assad. O ditador pode agarrar-se ao poder, mas, sem uma capital pacificada, esse poder dilui-se de dia para dia.

Tal como aconteceu noutras situações, as forças pró-governamentais estão a usar helicópteros e outros meios pesados para tentar esmagar a oposição, mas é duvidoso que isso seja verdadeiramente eficaz do ponto de vista militar num combate urbano. Já do ponto de vista psicológico e propagandístico, a utilização dessas armas é um inegável fracasso para o regime: as matanças indiscriminadas que têm resultado dessas operações empurraram a população que poderia estar indecisa ou neutra para os braços da rebelião, já para não falar do impacto externo que tiveram.

É fora da Síria, aliás, que se pode decidir se a saída de Al-Assad vai ser apressada ou não. Se a Rússia for convencida a deixar cair o seu velho aliado, e a perder a sua base naval no Mediterrâneo, em Tartus (e a Rússia valoriza muito os seus portos em águas quentes), então Bashar Al-Assad poderá perceber que chegou a hora de seguir o exemplo de Ben Ali, e não o de Muamar Khadafi.

Não é o mais provável, mas pode acontecer.

Guerra civil na Síria

A Cruz Vermelha Internacional acaba de constatar o óbvio: a Síria, toda a Síria, está em guerra civil.
Esta declaração veio no mesmo dia em que os combates alastraram à capital, Damasco. Há poucas horas, forças governamentais cortaram a estrada de ligação ao aeroporto e movimentaram- se no sentido de cercarem os rebeldes instalados em dois bairros do Sul de Damasco – pelo menos é o que dizem fontes da rebelião.
Os confrontos parecem ter atingido uma grande intensidade. Caso as forças do regime não consigam esmagar esta ofensiva adversária no espaço de 48 a 72 horas, Bashar Al-Assad terá os seus dias no poder contados – e provavelmente serão menos de 30.

Polónio? Outra vez?…

Yasser Arafat e Shimon Peres (1994)
Foto: World Economic Forum

A morte de Yasser Arafat, em 2004, foi estranha – para dizer o mínimo.

Os médicos franceses que trataram o presidente da Autoridade Palestiniana nos seus últimos dias de vida nunca conseguiram perceber muito bem o que o estava a matar. Por isso, logo na altura, começaram a correr rumores de que Arafat teria sido envenenado.

Agora, uma investigação do Instituto de Radiofísica de Lausanne, na Suíça, solicitada pela estação de televisão Aljazeera, indica que o líder palestiniano estaria contaminado com polónio-210, uma substância radioactiva rara.

A confirmar-se, este não é o primeiro caso célebre de envenenamento com polónio. O dissidente russo Alexander Litvinenko morreu em 2006, depois de ter bebido chá que continha a mesma substância. A autoria desse assassínio nunca foi oficialmente apurada, embora tenha sido atribuída aos serviços secretos russos.

A presença de polónio nos dois casos, só por si,  não nos permite fazer uma ligação entre eles, mas a coincidência pode ser relevante.

A viúva de Arafat e a Autoridade Palestiniana dizem que vão ordenar a exumação do corpo, para que sejam feitos novos exames e se apure a verdade. Israel tem sido acusado por muitos palestinianos, e não só, de ter executado o assassínio, mas isso nunca teria sido possível sem a cumplicidade de alguém próximo de Yasser Arafat.

O próprio Hamas o diz,  e até nem seria de todo surpreendente que o envenenamento tivesse sido um assunto estritamente interno. Arafat tinha tantos, ou mais, inimigos dentro da Palestina, como fora dela.

Por tudo isto, o mais certo é que nunca se chegue a saber com exactidão como é que a vida de Yasser Arafat chegou ao fim.

O estranho caso do avião turco II

Uma carta enviada à ONU pela Missão Permanente da Turquia nas Nações Unidas dá novas informações sobre o derrube do RF-4 Phantom turco que abordei no post anterior. O governo de Ancara diz agora que o aparelho voava sozinho, e não em parelha, o que torna mais credível a teoria da entrada acidental no espaço aéreo sírio. O problema é que outros dados fornecidos pelos turcos indicam que o aparelho foi seguido de perto pelo seu próprio controlo aéreo, que terá mesmo advertido a tripulação, via rádio, da violação que tinha cometido – DEPOIS DO FACTO.

Ora, como diz o The Aviationist, é muito suspeito que um avião de combate a voar sob controlo de rádio e radar “viole um espaço aéreo estrangeiro sem ser avisado pelo seu serviço de controlo de tráfego aéreo bem antes de a violação ocorrer”.

O estranho caso do avião turco

F-4 Phantom da Força Aérea da Turquia
Foto: Jerry Gunner

Estive tentado a escrever sobre este assunto mais cedo, mas ainda bem que não o fiz. Parafraseando o Sr. Rumsfeld, “há desconhecimentos desconhecidos” sobre o que se passou ao largo da costa síria na sexta-feira passada, embora eles agora sejam menos do que eram há umas horas.

O que parece certo é que um RF-4 Phantom da Força Aérea Turca estava a voar muito perto da região costeira de Latakia quando foi abatido por fogo anti-aéreo sírio. Os turcos reconhecem que o avião entrou no espaço aéreo do país vizinho, embora por engano, mas garantem que o aparelho foi derrubado por um míssil quando já se encontrava na zona internacional; por seu lado, o governo de Damasco afirma que o RF-4 estava a menos de 1200 metros da costa, a voar muito baixo, de tal modo que foi abatido por artilharia anti-aérea, após detecção visual, sem recurso a radar (BBC).

O que menos importa aqui (excepto à luz do direito internacional) é se o aparelho foi abatido dentro ou fora do espaço aéreo sírio, com ou sem aviso. A Turquia admitiu que houve uma violação, e quando ela ocorre num país em guerra civil, onde há pilotos a desertarem, não se pode esperar que os artilheiros de serviço perguntem primeiro e disparem depois. Mais significativa é a altitude a que o avião voava: se estava alto, e foi derrubado por um míssil, a versão turca do erro de navegação é mais defensável; se estava a 100 metros de altitude, à vista de terra, e foi abatido por metralhadoras, como dizem os sírios, facilmente se percebe que o RF-4 estaria ali com um fim bem definido e pouco inocente – testar as defesas aéreas e/ou recolher informação electrónica sobre o sistema de comando e controlo da Síria. Em suma, a espiar.

Esta última versão dos acontecimentos parece ser bem mais credível. O RF-4 é precisamente um avião de reconhecimento, modernizado com electrónica israelita muito recente. Além disso, tem um piloto e um navegador, o que faz com que seja difícil acreditar que se tenha “perdido no caminho”. Mais: a aeronave derrubada não estava só; como é habitual, voava em parelha com outro RF-4, cuja tripulação certamente teria percebido que haveria um erro de navegação.

O governo de Ancara não quer uma guerra com a Síria. O vice-primeiro ministro, Bulent Arinc, disse que o acto sírio “não ficará sem castigo”, mas tudo indica que a declaração é um pro forma para consumo interno, mesmo que os sírios continuem a alvejar aviões turcos. Significativamente, a declaração não veio da boca do primeiro-ministro, Tayyip Recip Erdogan, o que, em termos diplomáticos, lhe retira quase todo o peso. Além disso, a Turquia não pediu uma intervenção da NATO ao abrigo do artigo 5.º do tratado da aliança, que implicaria uma retaliação militar conjunta, mas antes ao abrigo do artigo 4.º, que apenas fala de consultas caso um dos estados-membros sinta que “a sua integridade territorial, independência e segurança estão ameaçadas”.

Todavia, isto não significa que não haja um perigo sério de escalada militar entre os dois estados. A Turquia está a apoiar os rebeldes que lutam contra o regime do presidente Bashar Al-Assad, o que predispõe o governo de Damasco a tomar atitudes cada vez mais agressivas face ao vizinho. À medida que a posição deste se vai debilitando, aumenta também a possibilidade de um acto desesperado, que mergulhe a região numa guerra generalizada.

Perante tudo isto, o governo e as forças armadas da Turquia têm de obter informação muito precisa sobre o que se passa do outro lado da fronteira do ponto de vista militar, até porque ninguém pode pôr de lado a possibilidade de uma intervenção da NATO, por muito que Obama e os aliados a recusem. O grande medo é que não seja possível conter o conflito interno sírio, e que seja necessária uma grande operação defensiva e/ou ofensiva face ao regime de Assad. Em qualquer dos cenários é necessária muita informação operacional prévia. Por isso, correm-se riscos, que, às vezes, resultam em tragédias e embaraços. Tenha sido ou não esse o caso do RF-4, é certo que, no lado turco, alguém está a assumir esses riscos.