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Incidentes entre Israel e Turquia

Aliados durante décadas, Israel e Turquia têm agora uma relação muito complicada, no seguimento do incidente sangrento com o navio Mavi Marmara, no ano passado.

Um artigo do The Aviationist vem agora mostrar até que ponto as relações entre os dois países se tornaram hostis, uma vez que lista vários casos de violação do espaço aéreo turco por aeronaves israelitas, e até situações de confronto potencial entre aviões de combate dos dois países, entre outros episódios.

Mesmo dando algum desconto à veracidade dos relatos, não deixa de impressionar o grau de agressividade que a situação parece ter atingido.

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O estranho caso do avião turco II

Uma carta enviada à ONU pela Missão Permanente da Turquia nas Nações Unidas dá novas informações sobre o derrube do RF-4 Phantom turco que abordei no post anterior. O governo de Ancara diz agora que o aparelho voava sozinho, e não em parelha, o que torna mais credível a teoria da entrada acidental no espaço aéreo sírio. O problema é que outros dados fornecidos pelos turcos indicam que o aparelho foi seguido de perto pelo seu próprio controlo aéreo, que terá mesmo advertido a tripulação, via rádio, da violação que tinha cometido – DEPOIS DO FACTO.

Ora, como diz o The Aviationist, é muito suspeito que um avião de combate a voar sob controlo de rádio e radar “viole um espaço aéreo estrangeiro sem ser avisado pelo seu serviço de controlo de tráfego aéreo bem antes de a violação ocorrer”.

O estranho caso do avião turco

F-4 Phantom da Força Aérea da Turquia
Foto: Jerry Gunner

Estive tentado a escrever sobre este assunto mais cedo, mas ainda bem que não o fiz. Parafraseando o Sr. Rumsfeld, “há desconhecimentos desconhecidos” sobre o que se passou ao largo da costa síria na sexta-feira passada, embora eles agora sejam menos do que eram há umas horas.

O que parece certo é que um RF-4 Phantom da Força Aérea Turca estava a voar muito perto da região costeira de Latakia quando foi abatido por fogo anti-aéreo sírio. Os turcos reconhecem que o avião entrou no espaço aéreo do país vizinho, embora por engano, mas garantem que o aparelho foi derrubado por um míssil quando já se encontrava na zona internacional; por seu lado, o governo de Damasco afirma que o RF-4 estava a menos de 1200 metros da costa, a voar muito baixo, de tal modo que foi abatido por artilharia anti-aérea, após detecção visual, sem recurso a radar (BBC).

O que menos importa aqui (excepto à luz do direito internacional) é se o aparelho foi abatido dentro ou fora do espaço aéreo sírio, com ou sem aviso. A Turquia admitiu que houve uma violação, e quando ela ocorre num país em guerra civil, onde há pilotos a desertarem, não se pode esperar que os artilheiros de serviço perguntem primeiro e disparem depois. Mais significativa é a altitude a que o avião voava: se estava alto, e foi derrubado por um míssil, a versão turca do erro de navegação é mais defensável; se estava a 100 metros de altitude, à vista de terra, e foi abatido por metralhadoras, como dizem os sírios, facilmente se percebe que o RF-4 estaria ali com um fim bem definido e pouco inocente – testar as defesas aéreas e/ou recolher informação electrónica sobre o sistema de comando e controlo da Síria. Em suma, a espiar.

Esta última versão dos acontecimentos parece ser bem mais credível. O RF-4 é precisamente um avião de reconhecimento, modernizado com electrónica israelita muito recente. Além disso, tem um piloto e um navegador, o que faz com que seja difícil acreditar que se tenha “perdido no caminho”. Mais: a aeronave derrubada não estava só; como é habitual, voava em parelha com outro RF-4, cuja tripulação certamente teria percebido que haveria um erro de navegação.

O governo de Ancara não quer uma guerra com a Síria. O vice-primeiro ministro, Bulent Arinc, disse que o acto sírio “não ficará sem castigo”, mas tudo indica que a declaração é um pro forma para consumo interno, mesmo que os sírios continuem a alvejar aviões turcos. Significativamente, a declaração não veio da boca do primeiro-ministro, Tayyip Recip Erdogan, o que, em termos diplomáticos, lhe retira quase todo o peso. Além disso, a Turquia não pediu uma intervenção da NATO ao abrigo do artigo 5.º do tratado da aliança, que implicaria uma retaliação militar conjunta, mas antes ao abrigo do artigo 4.º, que apenas fala de consultas caso um dos estados-membros sinta que “a sua integridade territorial, independência e segurança estão ameaçadas”.

Todavia, isto não significa que não haja um perigo sério de escalada militar entre os dois estados. A Turquia está a apoiar os rebeldes que lutam contra o regime do presidente Bashar Al-Assad, o que predispõe o governo de Damasco a tomar atitudes cada vez mais agressivas face ao vizinho. À medida que a posição deste se vai debilitando, aumenta também a possibilidade de um acto desesperado, que mergulhe a região numa guerra generalizada.

Perante tudo isto, o governo e as forças armadas da Turquia têm de obter informação muito precisa sobre o que se passa do outro lado da fronteira do ponto de vista militar, até porque ninguém pode pôr de lado a possibilidade de uma intervenção da NATO, por muito que Obama e os aliados a recusem. O grande medo é que não seja possível conter o conflito interno sírio, e que seja necessária uma grande operação defensiva e/ou ofensiva face ao regime de Assad. Em qualquer dos cenários é necessária muita informação operacional prévia. Por isso, correm-se riscos, que, às vezes, resultam em tragédias e embaraços. Tenha sido ou não esse o caso do RF-4, é certo que, no lado turco, alguém está a assumir esses riscos.