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Enquanto não olhamos…

Enquanto andamos ocupados com os nossos próprios problemas, enquanto olhamos obsessivamente para a Zona Euro, para Bruxelas, para o senhor Draghi e para a senhora Merkel, a Europa de Leste começa a arder em lume cada vez menos brando. Veja-se o que se está a passar na Bulgária e na Hungria (aqui e aqui).
Tal como aconteceu repetidamente nos últimos séculos, é nesta região que o destino da Europa se vai definir. As heranças imperiais otomanas a austro-húngaras continuam a ebulir e agora não há russos para as abafar, nem euros que cheguem para as diluir. O senhor Juncker bem avisa os incautos para terem juízo: não é por termos tido paz nas últimas sete décadas (ex-Jugoslávia à parte) que a vamos ter para sempre. A Europa pode ter uma nova guerra. E não é preciso muito para a começar.

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Ministro confirma negociações para venda de F-16

O ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, confirmou ontem nos Açores aquilo que já tinha aqui noticiado várias vezes: Portugal está a negociar com a Roménia e a Bulgária a venda de caças F-16 da Força Aérea.

Aguiar-Branco diz que o número de aviões a vender pode ir de nove a doze. Curiosamente, o governo búlgaro oficializou recentemente a decisão de comprar oito caças, com a escolha final a ser feita até 1 de Março. Não obstante várias fontes darem como certo que os F-16 portugueses serão os escolhidos, com o negócio a chegar aos 360 milhões de euros, a verdade é que parece haver divisões no governo búlgaro relativamente a esta matéria.

Outra informação interessante dada pelo ministro da Defesa é que esta venda, a concretizar-se, pode “facilitar e criar condições para que o reequipamento da própria Força Aérea seja mais forte do que é neste momento”. Deduz-se daqui que pelo menos parte da receita da venda dos caças poderá ser aplicada na compra de novos equipamentos, e aqui há duas prioridades claras, apontadas recentemente pelo chefe do Estado-Maior da Força Aérea: a substiuição dos aviões de treino Alpha Jet e dos helicópteros Alouette III, que não podem voar para além de 2018.

Mesmo que o negócio avance nos moldes noticiados, e mesmo que a Força Aérea fique com todo o dinheiro daí resultante, 360 milhões não dão para muito. Em 2009, a Itália aceitou pagar 220 milhões de euros por apenas seis aviões de treino avançado Aermacchi M-346 Master. A não ser que a Força Aérea ainda tenha esperanças de conseguir convencer os sul-coreanos a trazer os seus T-50 para Beja, o que dispensaria Portugal de comprar novas aeronaves deste tipo, não se vê maneira de conciliar a substituição simultânea dos Alpha Jet e dos Alouette.  A não ser que alguma alma caridosa ou mais imprevidente aceite pagar uma quantia inesperada pelos velhos Puma e Aviocar

Crítica romena à compra dos F-16

 

Apesar de ainda não se saber bem quem vai ficar com os F-16 portugueses excedentários, a decisão romena de tentar adquiri-los já está a gerar oposição. Um artigo de opinião publicado no jornal Adevarul
contesta o negócio com base em critérios tecnológicos: de que serve comprar aviões de combate em terceira mão quando já estamos a entrar na era dos aviões não tripulados?

 

Agora são os búlgaros

 

F-16 da Força Aérea Portuguesa
Fonte: USAF

Já aqui tinha falado do interesse da Roménia em comprar os F-16 excedentários que Portugal tem para vender. Agora parece que há mais um pretendente – a Bulgária.

De acordo com uma notícia emitida pela TVI24, que parece não estar disponível na sua página de Internet, os búlgaros até parecem estar a levar vantagem nas negociações, mas, tal como no caso romeno, há que ir com cautela. Ambos os países estão numa situação económica e financeira muito delicada, e ainda por cima têm a União Europeia a pressionar os respectivos governos para que realizem compras deste género de forma bem mais transparente – e , de preferência, beneficiando empresas europeias como a Saab e a British Aerospace, que estão desesperadas para vender o Grippen.

A confirmar-se esta notícia, o Governo português está já a precaver-se no que diz respeito à Roménia: se o negócio for fechado com este país, os aviões serão só entregues em 2016, depois de terem sido completamente pagos. O valor da venda pode ultrapassar os 450 milhões de euros, a pagar entre 2013 e 2016.

 

F-16 para a Roménia?

Há anos que Portugal tem dez caças F-16 para venda, dado que não tem orçamento, nem pilotos, para manter os mais de 40 aparelhos que possui a voar. Apesar de várias notícias terem indicado potenciais interessados nos aviões (o Paquistão foi o penúltimo), nada de substancial aconteceu.
Agora, informações vindas da Roménia indicam que aquele país está disposto a negociar a compra dos F-16 portugueses. O ministro da Defesa romeno diz que os aparelhos estão em excelente estado e que a sua aquisição pode bem ser a última hipótese de a Roménia substituir atempadamente os Mig 21 que asseguram a defesa aérea do país.
Acontece que este programa de reequipamento já teve tantos avanços e recuos que se torna difícil acreditar que seja mesmo desta que a Roménia vai abrir os cordões à bolsa, ou não estivesse o país a viver um momento muito delicado em termos financeiros e políticos.
No que diz respeito a Portugal, mesmo que o negócio se concretize, é duvidoso que a intenção aparente de governos anteriores de canalizar as verbas resultantes da venda de material militar obsoleto ou desnecessário para o reequipamento das Forças Armadas se concretize – ou não estivéssemos nós em plena estação da troika, com mais cortes na Defesa a adivinharem-se.

A Leste, muito de novo III

É por isto que a revista The Economist é uma das três ou quatro melhores publicações do mundo. Quem mais se dá ao trabalho de publicar em poucos dias três excelentes artigos sobre a Roménia, a Bulgária e a Hungria?

Quem quiser perceber a violenta tempestade que se está a formar a Leste por estes dias tem de acompanhar a cobertura que a The Economist tem feito do tema. A não perder, mesmo.

Desatino europeu

As minhas cautelas sobre os resultados da cimeira de Bruxelas parecem mesmo ter razão de ser. Os parceiros da Sr.ª Merkel na coligação que governa a Alemanha estão a ameaçá-la com a ruptura caso haja mais cedências aos aflitos da Europa do Sul. A Finlândia, por seu lado, também  já deu o seu recado (e a Holanda parece ir pelo mesmo caminho): está contra a utilização dos fundos de resgate da Zona Euro na compra de dívida pública dos estados em dificuldades, porque “a experiência mostra que estas compras não são efectivas e porque o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e o Mecanismo Europeu de Estabilização (MEE) têm recursos limitados”. Ou seja: parem lá de gastar o nosso dinheiro nisso, porque não é suficiente e não resolve problema nenhum. E o pior é que os finlandeses são capazes de ter razão.

Aumenta assim, em muitos sectores, a sensação de que o circo já está a arder. O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, que costuma primar pelo equilíbrio e até uma certa fleuma, não tem dúvidas em afirmar que “a periferia da Europa está em chamas” e que os Balcãs entrarão em guerra civil caso a Europa não atine. Este tema, só por si, justifica um longo e detalhado post, que escreverei mais tarde, mas não quero deixar de manifestar já a minha total concordância com Luís Amado. É que, enquanto temos estado todos muito ocupados e preocupados com as crises financeiras na Europa do Sul, têm-se verificado desenvolvimentos muito graves a Leste, em países como a Roménia e Bulgária. Como não fazem parte da Zona Euro, os seus problemas económicos têm sido pouco notados no resto da Europa, mas o facto é que esses estados têm sido atingidos com extrema dureza pela crise, tanto mais que nunca chegaram a desfrutar dos níveis de conforto e bem-estar que portugueses e gregos, apesar de tudo, conseguiram alcançar.

Assim, o triunfalismo das primeiras horas após a cimeira tem dado lugar a apreciações mais críticas e cépticas. O discurso de Durão Barroso no Parlamento Europeu, na terça-feira, é exemplar nesse aspecto, e dá a entender que aquilo que há muito se temia está mesmo a acontecer: a União está a desagregar-se e os seus líderes já nem se preocupam muito em escondê-lo.

Durão bateu forte e feio, a Norte e a Sul, e em público. Imagine-se como as coisas estarão em privado, quando as portas dos conselhos europeus se fecham…