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They’re back…

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De mansinho, sem que se tenha notado por aí além, os Estados Unidos estão a reforçar a sua presença militar na Europa. Mais significativamente, estão a reforçar a sua presença blindada na Europa.

Este gráfico da Statista mostra que o número de carros de combate e viaturas blindadas ainda não é nada por aí além, mas o que importa aqui referir é que, até há poucos meses, ele estava reduzido a zero, ou quase.

Com o pivot estratégico dos EUA para a Ásia, a Europa estava a tornar-se num cenário secundário para Washington – e nós, portugueses, bem o sabemos, por causa do esvaziamento da base das Lajes -, mas agora as prioridades estão a alterar-se novamente.

O que explica esta marcha-atrás?

A Rússia, claro. A invasão da Ucrânia, o envio de forças para a Síria (que é como quem diz, para o Mediterrâneo) e a posição cada vez mais agressiva que Moscovo (muitas vezes por meios encobertos, outras nem tanto assim) vai tendo relativamente aos países bálticos e aos outros estados europeus que estão na sua fronteira europeia, fez tocar as campainhas de alarme no Pentágono e na Casa Branca.

E Trump? O seu “caso” com Putin irá levá-lo a pôr fim a esta “flexão de músculos” na fronteira leste da NATO?

Duvido. Especialmente agora que se confirma que o novo presidente teve uma “mãozinha” de Moscovo para chegar à Casa Branca. Para não se expor a mais críticas, e mesmo a eventuais tentativas de impugnação, Donald Trump terá de mostrar mais distanciamento relativamente à Rússia do aquele que tem tido até agora.

A não ser que Putin ofereça algo que os EUA tenham muita dificuldade em recusar…

 

 

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The West and the rest

Niall Ferguson é um historiador muito polémico. Há quem ame, há quem odeie, mas certamente ninguém o pode acusar de ser aborrecido.

Bom exemplo disso mesmo é esta entrevista ao “Expresso”, em que decreta a morte do Ocidente.

A ler. Especialmente se discordar.

Agora é o Chipre

Bandeira do Chipre
Como quase toda a gente percebeu, a União Europeia acaba de dar um tiro de grosso calibre no pé.
Ao confiscarem – e não há outra palavra para descrever o acto – parte dos depósitos a prazo colocados nos bancos cipriotas, os governos da Zona Euro destruíram boa parte do que tinha sido conseguido nos últimos meses com o pronunciamento do Sr. Draghi de que o Banco Central Europeu (BCE) faria tudo o que fosse necessário para salvaguardar a moeda única.
Um problema relativamente pequeno e limitado (a insolvência do Chipre) acaba assim por tomar uma grande dimensão desnecessariamente. Ainda por cima, parece que a decisão foi tomada contra a vontade do BCE.

(Des)União Europeia IV

AOL Defense tem uma análise geopolítica muito interessante sobre o presente e o futuro da Europa, da autoria de Harald Malmgren e Robbin Laird.

Deixo aqui um extracto do último parágrafo, traduzido por mim:

Um período importante da história europeia está a chegar ao fim. O caminho em direcção ao federalismo europeu é o desfecho lógico dos desenvolvimentos dos últimos 20 anos, mas os desafios são difíceis de continuar neste caminho.

Um desfecho mais provável é a desagregação e a reestruturação da Europa.  Sugerimos mesmo que um novo mapa europeu pode surgir, e discutimos este mapa nos termos de três dinâmicas: a formação da Euro-Alemanha, o papel incrementado dos estados nórdicos, forjado em volta do seu destino árctico, e a implosão da Grécia.

(Des)união europeia

aqui escrevi sobre as fracturas que estão a surgir de dia para dia na União Europeia, e sobre as ameaças directas à sua paz que estão a surgir a Leste. Subjacente a tudo isto está uma história muito longa e complicada, que evoluiu muito em função da geografia do continente. Ora, o conhecimento da História e da Geografia parece ser  uma das coisas que menos abunda entre os líderes europeus e a população em geral, com os tristes resultados que se conhecem.

Robert D. Kaplan escreveu um magnífico artigo na The National Interest de Julho que pode servir muito bem como guia para qualquer pessoa interessada perceber como é que a Europa se formou, com toda a sua enorme diversidade geográfica, económica, política e cultural, e para onde pode ir. “O Mapa Dividido da Europa” mostra isso mesmo que o título indica: que apesar do esforço enorme de unificação do continente que tem sido levado a cabo nos últimos 50 anos, a Europa continua a ser um conjunto de regiões transfronteiriças com identidades e realidades bem próprias que se impõem frequentemente às vontades dos estados e dos políticos.

Kaplan confirma o já bem conhecido deslocamento do centro de gravidade da Europa para Leste, mas também não tem dúvidas de que ela se expandirá para Sul. Para ele, a fronteira natural da Europa será o Deserto do Saara, e o Mediterrâneo voltará a servir como elo de união entre as suas duas margens, e não de separação, como tem acontecido nos últimos séculos. A Grécia, por estar no centro desse mundo por nascer, será o “termómetro” da Europa nos próximos tempos.

Não sei se concordo com tudo o que Robert D. Kaplan escreve, mas o seu interesse e brilhantismo são inegáveis. Leiam, por favor.

Desatino europeu

As minhas cautelas sobre os resultados da cimeira de Bruxelas parecem mesmo ter razão de ser. Os parceiros da Sr.ª Merkel na coligação que governa a Alemanha estão a ameaçá-la com a ruptura caso haja mais cedências aos aflitos da Europa do Sul. A Finlândia, por seu lado, também  já deu o seu recado (e a Holanda parece ir pelo mesmo caminho): está contra a utilização dos fundos de resgate da Zona Euro na compra de dívida pública dos estados em dificuldades, porque “a experiência mostra que estas compras não são efectivas e porque o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e o Mecanismo Europeu de Estabilização (MEE) têm recursos limitados”. Ou seja: parem lá de gastar o nosso dinheiro nisso, porque não é suficiente e não resolve problema nenhum. E o pior é que os finlandeses são capazes de ter razão.

Aumenta assim, em muitos sectores, a sensação de que o circo já está a arder. O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, que costuma primar pelo equilíbrio e até uma certa fleuma, não tem dúvidas em afirmar que “a periferia da Europa está em chamas” e que os Balcãs entrarão em guerra civil caso a Europa não atine. Este tema, só por si, justifica um longo e detalhado post, que escreverei mais tarde, mas não quero deixar de manifestar já a minha total concordância com Luís Amado. É que, enquanto temos estado todos muito ocupados e preocupados com as crises financeiras na Europa do Sul, têm-se verificado desenvolvimentos muito graves a Leste, em países como a Roménia e Bulgária. Como não fazem parte da Zona Euro, os seus problemas económicos têm sido pouco notados no resto da Europa, mas o facto é que esses estados têm sido atingidos com extrema dureza pela crise, tanto mais que nunca chegaram a desfrutar dos níveis de conforto e bem-estar que portugueses e gregos, apesar de tudo, conseguiram alcançar.

Assim, o triunfalismo das primeiras horas após a cimeira tem dado lugar a apreciações mais críticas e cépticas. O discurso de Durão Barroso no Parlamento Europeu, na terça-feira, é exemplar nesse aspecto, e dá a entender que aquilo que há muito se temia está mesmo a acontecer: a União está a desagregar-se e os seus líderes já nem se preocupam muito em escondê-lo.

Durão bateu forte e feio, a Norte e a Sul, e em público. Imagine-se como as coisas estarão em privado, quando as portas dos conselhos europeus se fecham…