Tag Archives: EUA

They’re back…

chartoftheday_7551_heavy_us_army_equipment_deployed_to_eastern_europe_n

De mansinho, sem que se tenha notado por aí além, os Estados Unidos estão a reforçar a sua presença militar na Europa. Mais significativamente, estão a reforçar a sua presença blindada na Europa.

Este gráfico da Statista mostra que o número de carros de combate e viaturas blindadas ainda não é nada por aí além, mas o que importa aqui referir é que, até há poucos meses, ele estava reduzido a zero, ou quase.

Com o pivot estratégico dos EUA para a Ásia, a Europa estava a tornar-se num cenário secundário para Washington – e nós, portugueses, bem o sabemos, por causa do esvaziamento da base das Lajes -, mas agora as prioridades estão a alterar-se novamente.

O que explica esta marcha-atrás?

A Rússia, claro. A invasão da Ucrânia, o envio de forças para a Síria (que é como quem diz, para o Mediterrâneo) e a posição cada vez mais agressiva que Moscovo (muitas vezes por meios encobertos, outras nem tanto assim) vai tendo relativamente aos países bálticos e aos outros estados europeus que estão na sua fronteira europeia, fez tocar as campainhas de alarme no Pentágono e na Casa Branca.

E Trump? O seu “caso” com Putin irá levá-lo a pôr fim a esta “flexão de músculos” na fronteira leste da NATO?

Duvido. Especialmente agora que se confirma que o novo presidente teve uma “mãozinha” de Moscovo para chegar à Casa Branca. Para não se expor a mais críticas, e mesmo a eventuais tentativas de impugnação, Donald Trump terá de mostrar mais distanciamento relativamente à Rússia do aquele que tem tido até agora.

A não ser que Putin ofereça algo que os EUA tenham muita dificuldade em recusar…

 

 

Anúncios

Cuba e os EUA

Há poucos dias, tive a oportunidade de entrevistar o dissidente cubano Gullermo Fariñas, aquando da sua passagem por Lisboa.

Fariñas tem uma visão muito crítica do reatamento das relações entre Cuba e os Estados Unidos, mas mesmo assim acredita que a democratização do seu país acontecerá num curto espaço de tempo.

Aqui fica a reportagem que resultou dessa entrevista.

Relações EUA – Cuba: 50 anos depois, o degelo

Em dezembro de 2014, o presidente dos Estados Unidos deu um passo histórico: anunciou que o seu governo estava preparado para restabelecer relações diplomáticas com Cuba. Após mais de 50 anos de inimizade, que incluiu uma tentativa de invasão a partir de solo norte-americano e conspirações para assassinar o líder cubano, Fidel Castro, os EUA reconheciam assim que a sua política de bloqueio já não faz sentido.

O primeiro sinal público de que algo iria acontecer veio ainda em 2013. No funeral de Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e líder do movimento de luta contra a segregação racial, Barack Obama cumprimentou Raúl Castro, o presidente de Cuba, e trocou algumas palavras com ele.

O encontro teve tanto de inopinado como de surpreendente. Desde 1956 que os líderes dos dois países não se encontravam frente a frente. Hoje, sabemos que esse pequeno, mas muito significativo gesto, mais não era do que o primeiro sinal público de uma aproximação que vinha sendo preparada há bastante tempo nos bastidores.

Já em abril deste ano, deram-se mais dois passos muito significativos: os dois presidentes voltaram a encontrar-se, e desta vez não se ficaram por um cumprimento de circunstância. Houve uma reunião formal à margem da Cimeira das Américas, no Panamá, que provavelmente contribuiu para o passo seguinte, que foi dado dias depois pela administração norte-americana: a apresentação de um pedido formal ao Congresso para que Cuba seja retirada da lista dos países que apoiam o terrorismo, algo que se concretizou mo final de maio.

Barack Obama nunca escondeu que achava que a política seguida pelos Estados Unidos relativamente a Cuba desde os anos 60 do séc. xx era não só errada como contraproducente. Nada, aliás, que quase todos os presidentes norte-americanos dos últimos 40 anos não pensassem também, sendo certo que nunca sentiram que tivessem condições políticas para alterar essa política.

O problema de fundo era (e ainda é) eleitoral: os americanos de origem cubana têm um enorme peso no estado da Flórida, porque foi aí que centenas de milhares de exilados da ilha se refugiaram quando os comunistas tomaram o poder, em 1959; como a Flórida é um estado chave na decisão das eleições presidenciais norte-americanas, nenhum presidente ou candidato a tal cargo se atrevia a ir contra o credo dos exilados.

No mínimo dos mínimos, os EUA teriam de manter um bloqueio económico, político e diplomático total em relação a Cuba, e essa foi, no essencial, a política seguida desde 1962.

À medida que o novo governo de Havana se foi aproximando da União Soviética, os EUA foram endurecendo a sua atitude. Essa evolução atingiu o seu ponto culminante com a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e com a Crise dos Mísseis Cubanos, em 1962.

No primeiro caso, a CIA treinou e equipou uma força de exilados anticomunistas, que tentaram invadir a ilha a partir de território norte-americano. O golpe fracassou e a administração do presidente Kennedy sofreu um grande embaraço, que teve consequências duradouras. O governo norte-americano nunca mais apoiou iniciativas desse tipo, e só considerou seriamente um ataque de larga escala contra Cuba numa outra ocasião: quando, no ano seguinte, os soviéticos instalaram mísseis nucleares na ilha.

A partir daí, os EUA optaram por ações menos visíveis, de que se destacam diversas tentativas de assassinato de Fidel Castro. Uma investigação do Congresso dos EUA determinou que, entre 1960 e 1965, a CIA organizou pelo menos oito operações deste tipo, algumas das quais terão mesmo contado com a colaboração da Máfia norte-americana.

Nos anos 70 e 80, os governos norte-americanos parecem ter deixado a violência de lado, mas mantiveram o bloqueio económico à ilha. Na prática, isso significou que os cubanos têm tido um acesso muito limitado aos mercados económicos e financeiros mundiais, o que trouxe enormes carências à população.

Enquanto a União Soviética existiu, parte dessas dificuldades foram sendo amenizadas pelo enorme apoio dado pelo governo de Moscovo, mas depois de 1991 o regime cubano ficou por sua conta.

Durante tudo isto, o regime comunista nunca pareceu ter estado seriamente ameaçado internamente. Apesar de o governo de Fidel Castro ter cometido enormes erros económicos, que custaram muito ao povo cubano, o bloqueio norte-americano serviu como justificação para quase tudo o que corria mal na ilha.

Assim, em vez de enfraquecer o regime, o bloqueio acabou por o fortalecer.

Obama percebeu isso mesmo e decidiu arriscar uma mudança radical de rumo, mas só a sua vontade não é suficiente. Ao presidente dos Estados Unidos cabe gerir a política externa do país, mas só o Congresso pode levantar o embargo comercial. Aí, a maioria pertence à oposição republicana, e sabe-se que muitos desses congressistas e senadores estão contra o fim do bloqueio.

De qualquer modo, o processo de abertura já começou. Algumas das muitas limitações que existiam nas viagens e comunicações entre os dois países foram levantadas. Hoje, já há milhares de norte-americanos a visitar Cuba todos os meses, algo que seria impensável até ao ano passado. Muitas empresas já começaram a preparar a sua entrada naquele país, e é certo que, assim que o embargo for levantado, haverá uma autêntica invasão de empresários dos Estados Unidos e de outras partes do mundo.

A economia de Cuba sofrerá uma grande transformação, e o mesmo acontecerá fatalmente com a sua sociedade. Mais tarde ou mais cedo, a política terá de acompanhar essa mudança e, então, talvez se verifique aquilo que muitos opositores do bloqueio dizem há muito tempo: que o comunismo em Cuba desaparecerá quando os Estados Unidos deixem de travar a entrada dos seus produtos, das suas ideias e do seu modo de vida em Cuba.

Afinal, só há mesmo 140 quilómetros a separar os dois países.

O Mundo à beira da guerra

Cuba tem tido uma importância desproporcional face ao seu tamanho, população ou riqueza, em grande medida, pela sua situação geográfica (está a pouco mais de 100 quilómetros dos Estados Unidos), e isso nunca foi mais visível do que em 1962, quando a União Soviética instalou mísseis nucleares em solo cubano.

Ciente de que, se permitisse essa situação, os EUA não teriam capacidade de reagir em tempo útil a um eventual ataque atómico da URSS, o governo do presidente Kennedy lançou um ultimato ao executivo de Moscovo, liderado por Nikita Khruschev: ou os soviéticos retiravam os mísseis ou haveria guerra.

Perante a hipótese de um conflito nuclear iminente, Khruschev recuou e ordenou o regresso dos navios.

Foi assim que o mundo se salvou da aniquilação, e nunca estivemos tão perto dela como nesses dias de outubro de 1962.

Este post reproduz, com pequenas alterações, o artigo que escrevi para o número de maio da revista “Família Cristã”.

Um pai fala

Mais um massacre na América.
Um pai que perdeu o filho fala.
Está tudo dito.

Comunicações (in)seguras

Parece que a presidenta Dilma (sigo o estilo preferido pela própria) continua zangada com a espionagem norte-americana às comunicações brasileiras. Por isso, o Brasil chegou na segunda-feira passada a acordo com a União Europeia para a colocação de um novo cabo submarino que o ligue à Europa. Só assim, diz Dilma, se pode “garantir a neutralidade” da Internet.

Por estranho que possa parecer, o Brasil depende quase totalmente de cabos norte-americanos para garantir as suas comunicações com a Europa. A ligação directa que existe está, pelos vistos, ultrapassada e serve apenas para comunicações telefónicas.

Bem, se Dilma pretende fugir ao controlo da NSA, talvez seja melhor pensar duas vezes. Diversificar redes é sempre bom, mas se espera ter mais segurança do lado europeu, talvez esteja a iludir-se. O novo cabo vai ter Lisboa como ponto de amarração europeu, e é bem sabido que Portugal é um dos locais onde a NSA faz a sua intercepção global de comunicações. Pelo menos é o que nos diz mais um dos documentos secretos da agência que foram divulgados por Edward Snowden nos últimos meses.

Este mapa mostra que Portugal tem três estações de amarração: Lisboa, Seixal e Sesimbra. O slide da NSA não deixa claro em que ponto exacto do território português se situa o posto de intercepção da agência norte-americana, mas, dada a natureza fechada das comunicações por cabo, o lógico é que a NSA tenha acesso a todas as estações. Se ele é consentido pelo governo português ou clandestino, é outra conversa, embora eu esteja inclinado para a primeira hipótese. Por alguma coisa Portugal está no segundo grupo de países em que os EUA mais confiam no que diz respeito ao acesso e à troca de comunicações/informações.

É claro que basta olhar para o mapa mundial dos cabos submarinos para perceber que o Brasil não tem muitas alternativas a Portugal para a sua ligação transatlântica. Todos os outros cabos vão ter a um de dois países: Grã-Bretanha e Espanha. Como é fácil de calcular, ambos têm também “orelhas” da NSA aí instaladas, e por muitos protestos públicos que haja, não se prevê que isso mude.

Moral da história: a geografia é tramada e a NSA está em todo o lado.

A propósito da das escutas da NSA

Toda a gente espia.

Uns mais, outros menos, consoante os meios e a oportunidade.

Os EUA espiam mais do que todos os outros países juntos porque, enfim… podem.

Nenhuma superpotência que o queira continuar a ser se pode dar ao luxo de não tentar saber o que todos os outros – amigos ou inimigos – andam a fazer.

É assim a natureza das coisas. A conquista e a manutenção do poder têm este custo.

Periodicamente, escândalos como o que agora atinge a NSA vêm a lume. Os escutados manifestam a sua indignação e exigem reparação; quem escuta promete acabar com os abusos e faz juras de amizade eternas. Nalguns casos, até professa ignorância sobre a matéria – e até pode nem estar a mentir.

Passado o período de nojo adequado, o caso é calmamente atirado para os arquivos e para o esquecimento. É que, afinal, pelo menos entre governos, não há ingénuos nem inocentes nesta matéria.

Mesmo nos países democráticos, onde há leis que regulam estas coisas, há sempre uma maneira de se fazer o que é proibido. Nuns casos, pede-se a serviços amigos que façam por nós aquilo que nos está vedado; noutros, utiliza-se contractors; noutros ainda, passa-se pura e simplesmente por cima da lei.

É que no mundo da espionagem, o que realmente conta raramente vai para o papel. Sem papel, não há provas – a não ser que alguém decida falar. Nos raros casos em que isso acontece e “cabeças rolam”, há sempre a solução de mudar o nome às coisas.

Foi o que aconteceu nos anos 70 do século XX, quando o Comité Church do Congresso norte-americano deslindou muitos dos programas ilegais que a CIA, a NSA e o FBI levavam a cabo há décadas; foi o que aconteceu em 1929, quando o secretário da Guerra dos EUA, Henry Stimson, extinguiu o serviço de intercepção e decifragem das comunicações estrangeiras do Departamento de Estado. Stimson terá dito que “cavalheiros não lêem o correio de outros cavalheiros”, mas o que é facto é que, assim que a “Black Chamber” fechou, os seus arquivos foram imediatamente transferidos para uma nova organização que fazia exatamente a mesma coisa.

É assim há muitas décadas, nos EUA e noutras partes do mundo. Abusos dão lugar a purgas; muda-se o nome às instituições e às operações que elas desenvolvem, e tudo volta à “normalidade”.

No caso norte-americano, a “normalidade” é cada vez mais difícil de manter devido ao tamanho gigantesco do sistema de espionagem. Há pelo menos 16 agências diferentes que têm como missão recolher e tratar informação secreta. O número de pessoas com autorização para aceder a informação de nível top secret chega aos quatro milhões!

É por isto que a espionagem norte-americana é, simultaneamente, a maior do mundo e a menos secreta. O sistema é tão grande e grotesco que torna perfeitamente possível que um analista de baixo nível, que nem sequer é funcionário público, como Edward Snowden, consiga ter acesso a informação vital que não chega ao Presidente dos Estados Unidos.

Com tanta gente a espiar, é fatal que apareçam mais Snowdens e Mannings. Todavia, o gigantismo do sistema, que o torna vulnerável a estas fugas de informação, também o protege. Hoje, ele tem vida própria e multiplica-se para além dos controlos políticos e legais. Os presidentes passam, mas as agências, operações e espiões ficam – nalguns casos, durante décadas.

Quando Harry Truman se tornou presidente, em 1945, pôs em cima da sua secretária uma placa onde estava escrito: “The buck stops here” (“A responsabilidade é minha”). Hoje, Barack Obama não poderia fazer o mesmo de consciência tranquila, porque não controla inteiramente a máquina do seu governo.

Na verdade, nem sequer sabemos se ele sabe o que devia saber.

 

“Raid” na Somália II

Afinal, a coisa não vai passar assim tão despercebida…

O Iraque à beira do precipício – outra vez…

No exacto instante em que me preparava para escrever a primeira letra deste post o meu telemóvel avisou-me desta notícia de última hora:

13 killed as suicide bomber targets coffee shop in Shiite town north of Baghdad, Iraq official says.

Fonte: MSNBC

Nada de novo, portanto.

Quem segue as notícias com alguma atenção, já reparou que a situação no Iraque tem piorado muito – muito mesmo! – nos últimos meses. Todavia,  a comunicação social não liga muito ao que ali se passa. Falta um grande acontecimento que recentre as atenções no Iraque. Guerras no Médio Oriente, o Mundo só aguenta uma de cada vez, e agora é a vez da Síria.

Entretanto, de bomba em bomba, há cada vez mais iraquianos a morrer. O ISW diz agora que, se os EUA não fizerem algo depressa para reforçar as capacidades do governo de Bagdade, em breve a situação reverterá ao que era em 2007, antes de o general David Petraeus ter iniciado a sua famosa campanha de contra-insurreição.

Ou seja: no preciso momento em que os EUA parecem ter evitado uma intervenção indesejada na Síria e em que se preparam para sair do Afeganistão, podem muito bem ver-se forçados a voltar ao Iraque, nem que seja de forma mitigada.

Bem avisou Colin Powell: “Quem parte, paga”.

O horror

O blogue “Restricted Data” tem um texto impressionante sobre o desenvolvimento, teste e utilização das bombas incendiárias durante a II Guerra Mundial.

Estes pequenos dispositivos revelaram-se muito mais eficazes do que qualquer outra arma – incluindo a atómica – na destruição do Japão. O seu objectivo era, pura e simplesmente, matar civis e destruir as cidades onde eles viviam. Nada mais.

Hoje isso é muitas vezes esquecido, mas a II Guerra Mundial era mesmo uma guerra total. Nenhum dos lados aceitava menos que a rendição incondicional ou a morte dos seus inimigos, fossem eles civis ou militares.

Não vou entrar na polémica sobre a justeza e necessidade dos bombardeamentos incendiários e atómicos executados pelos Aliados durante o conflito, mas há uma lição que se pode tirar: os estados democráticos fazem a guerra no século XXI com muítíssima mais restrição do que aquela que usaram no passado – e não falo só da II Guerra Mundial.

Guerra é sempre sinónimo de horror, mas entre a bomba incendiária e a bomba guiada por laser há uma diferença abismal: uma serve para matar indiscriminadamente; a outra serve para matar de forma limitada.

Lá vamos nós outra vez…

À medida que uma ofensiva ocidental na Síria se aproxima cada vez mais, as questões chatas do costume surgem com frequência redobrada.
Qual é o objectivo do ataque?
Quando e como deve terminar?
Que objectivos estratégicos serve ele?
Como o “Information Dissemination” explica, os EUA e o os seus aliados parecem, mais uma vez, estar a substituir uma reflexão estratégica ponderada pelo voluntarismo cego do “atacamos porque podemos”.
O uso de armas químicas é um crime repugnante, mas atacar a Síria sem estabelecer objectivos estratégicos claros e sem o apoio da opinião pública pode revelar-se uma grande asneira, e de consequências imprevisíveis.