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Ucrânia à beira do precipício II

Urso russo em versão japonesa (1900)

O melhor cenário antecipado no meu último post sobre a Ucrânia concretizou-se. As Forças Armadas não aceitaram exterminar a oposição na Praça Maidan e o presidente Yanukovich foi obrigado a fugir. Se o novo governo não lhe deitar a mão antes, um destes dias aparecerá na Rússia, se é que já não está lá.

Agora começa a luta pela sobrevivência da Ucrânia tal como existe hoje. Como os últimos resultados eleitorais demonstraram, o país está dividido ao meio: de um lado, no oeste do país, a população de língua e cultura ucraniana propriamente dita, que apoia as forças da oposição; do outro, no leste, a população de língua e cultura russa, que está do lado de Yanukovich (ou, pelo menos, de uma relação preferencial com a Rússia).

Yanukovich até pode ir parar à cadeia (ou algo pior), mas o problema de base mantém-se: a Ucrânia é um país dilacerado pela atracção de dois pólos muito poderosos nas suas fronteiras: o Ocidente e a Rússia. É preciso não esquecer que a Ucrânia independente é uma criação do século XX. A História diz-nos que esteve quase sempre dividida por dois grandes impérios: o russo e o austro-húngaro. O segundo desapareceu em 1918, mas o primeiro sobrevive mal disfarçado na Rússia de Vladimir Putin. Estamos, por isso, a assistir a uma luta titânica pela reformulação do equilíbrio de poderes na Europa.

O “urso” já esteve bem mais gordo, mas, com o Ocidente enfraquecido, há certos riscos que Putin se pode dar ao luxo de correr – e ele já mostrou na Geórgia que é um jogador muito ousado.

Ucrânia à beira do precipício

Espero estar enganado, mas hoje, em Kiev, é muito provável que haja uma matança.

As últimas notícias indicam que o Governo se prepara para lançar o Exército contra a população. O presidente dos EUA, Barack Obama, apressou-se a avisar que “os militares não devem intervir numa situação que deve ser resolvida por civis”. As pressões internacionais são cada vez mais fortes, mas não parecem ser suficientes para travar a escalada.

Yanukovich não tem espaço de manobra: ele sabe que, agora, só a sua saída da presidência poderá apaziguar os ânimos. Face ao que se passou nos últimos dias, deixar o cargo significaria uma de duas coisas: exílio ou prisão. Perante isto, ele tentará prevalecer pela força – isto se as Forças Armadas o deixarem.