Integração vs. harmonização

Não concordo com tudo, mas aqui está uma análise muito lúcida do estado da União Europeia.

Tantas explosões e tanto silêncio

Como tem acontecido em relação a muitas outras situações noutros locais, a pandemia obscureceu algo importante que se tem passado no Irão. Desde junho, dezenas de explosões e incêndios atingiram instalações militares de elevada importância e outras aparentemente sem importância nenhuma.

O sempre excelente “Bulletin of the Atomic Scientists” acaba de publicar uma síntese dos casos mais relevantes e avança com possíveis explicações para o facto de o governo de Teerão não ter aproveitado a situação para lançar mais uma estridente campanha de ameaças contra Israel e os Estados Unidos.

Creio que a análise do “Bulletin” é certeira: o Irão não quer agitar as águas, porque está convencido de que há uma grande probabilidade de o Sr. Trump sair da Casa Branca em janeiro do ano que vem.

Caso isso se verifique, a reconfiguração da política externa norte-americana será enorme, mas com uma exceção crucial – a China. O estilo poderá passar a ser mais “macio”, mas a substância continuará a mesma. A rivalidade entre os dois países não desaparecerá só porque Trump desaparece da presidência.

Se chegar à Casa Branca, Joe Biden dará sequência ao acordo nuclear alcançado nos mandatos de Obama com o Irão e até poderá aproveitar o trabalho feito por Trump com Kim Jong-Un para tentar resolver de uma vez por todas o problema norte-coreano.

Desaparecidos esses dois grandes irritantes da política externa norte-americana, todo o foco poderá ser concentrado na China, que é o grande desafio geoestratégico dos EUA nas próxima décadas.

A crise da União Europeia

O primeiro-ministro português fez hoje uma das mais importantes declarações que tive a oportunidade de ouvir de um líder europeu em muitos anos.

Num intervalo das negociações sobre o plano de recuperação económica que foi discutido este fim-de-semana em Bruxelas, António Costa explicou sem rodeios o problema de fundo que aflige a União Europeia: há países que não querem fazer parte deste projeto tal como existe agora. Mais, disse Costa, há mesmo países que não querem uma união, mas apenas um mercado comum e uma união aduaneira, tal como acontecia antes de 1992.

As palavras do primeiro-ministro foram proferidas no contexto das negociações extremamente difíceis sobre o plano Merkel/Von Der Leyen, mas não haja ilusões: mesmo que se chegue a um acordo (o que à hora em que escrevo estas linhas parece extremamente duvidoso), o problema de fundo vai manter-se.

Há dez anos, a crise das dívidas soberanas causou uma fratura na UE que nunca foi curada. Nessa altura, surgiu uma ruptura de confiança e solidariedade entre os países mais ricos e os mais pobres que se mantém até aos nossos dias. Os mais ricos não confiam nos mais pobres para manter as suas contas em dia e, por isso, poupam na solidaridade sempre que podem; os mais pobres não confiam que os mais ricos lha dêem.

António Costa teve o grande mérito de romper com o euro-otimismo enjoativo do discurso oficial. O primeiro passo para que se resolva o enorme problema que a UE enfrenta é reconhecer que ele existe. O passo seguinte é pôr todos os países a dizer exatamente o que pretendem desta união – se é que a querem de todo. Só então se poderá determinar com honestidade o que se deve fazer e o que se pode fazer. Sem isso, a União Europeia não terá futuro.

Alguns federalistas e unionistas ferrenhos dirão que “porta da rua é serventia da casa”, e que quem não está disposto a seguir o caminho atual só tem de fazer como o Reino Unido. Outros, logo trarão à baila a “caixa de velocidades europeia”, com duas ou mesmo três mudanças (ou serão classes?) a servir para manter os mais céticos (ou menos capazes?) dentro do redil.

Há ainda uma terceira opção, que nunca é mencionada, porque choca frontalmente com o famoso e sacrossanto preceito Deloriano: o projeto europeu é como uma bicicleta; só pedalando sempre em frente é que se evita que acabe na valeta. O que nunca é dito é que é possivel pedalar e mudar de direção – ou até inverter o sentido de marcha.

Talvez seja tempo de se considerar essa possibilidade. Dar um ou mais passos atrás poderá salvar uma das melhores coisas que foram feitas na Europa e no Mundo nos últimos 75 anos, pelo menos.

Os fundadores da CEE, mesmo os federalistas, sempre perceberam uma coisa fundamental, que foi esquecida entretanto: não é possível construir uma Europa Unida (e vá-se lá saber quantas definições disso é que existem…) no espaço de poucas décadas. Isso é um trabalho de séculos, que tem de partir da existência um verdadeiro sentimento europeu – patriotismo, se preferirem.

Confundir a existência de uma moeda europeia, de leis europeias e de um governo europeu com isso é o equívoco trágico que tem acontecido nas duas últimas décadas, pelo menos.

O resultado está à vista.

Ataque a Moçambique

Felizmente, começa agora a dar-se mais atenção ao que se passa na província moçambicana de Cabo Delgado. A dimensão da tragédia causada pelos extremistas islâmicos já não permite que ela seja escondida ou ignorada.

Deixo aqui o meu pequeno contributo para um maior conhecimento público do que ali se passa. Foi publicado no número de junho da revista “Família Cristã”.

Geopolítica e Comunicação Social

Na passada sexta-feira tive a oportunidade de falar sobre “Geopolítica e Comunicação Social” com os estudantes do mestrado de Segurança, Defesa e Resolução de Conflitos do Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração (ISCIA), em Aveiro.
Apesar das limitações impostas pela pandemia – por muito boa que seja a tecnologia de comunicação à distância, nada se compara ao contacto cara a cara -, foram mais de duas horas de exposição e discussão muito interessantes, cheias de perguntas pertinentes que permitiram alargar bastante o âmbito da intervenção inicial.
Agradeço muito ao ISCIA o convite, e em especial ao Prof. Dr. Carlos Mendes Dias, coordenador do mestrado.
Deixo aqui a apresentação que usei neste seminário, na esperança de que possa ser útil a quem se interessa por estes temas. Se puder servir de ponto de partida para alguma discussão nos comentários deste “post” ou noutro local, tanto melhor!

Anuário de 2019 do CEID e da SAEEG

Acaba de ser publicada a edição de 2019 do anuário do Centro de Estudios Internacionales para el Desarrollo (CEID) e da Sociedad Argentina de Estudios Estratégicos y Globales (SAEEG), que conta com um texto da minha autoria.

Recomendo vivamente a leitura dos restantes artigos, já que oferecem uma excelente variedade de temas e abordagens, muitas vezes pouco conhecidas em Portugal e na Europa em geral.

O anuário pode ser descarregado gratuitamente aqui: https://preview.tinyurl.com/y99mq4yp

“Lajes Confidencial”

Quase um ano e meio de trabalho, mas muitos mais de estudo e recolha de informações que pareciam levar só a becos sem saída, tiveram no sábado passado o início da sua conclusão.

Muito obrigado às dezenas de pessoas que contribuíram para a série de reportagens “Lajes Confidencial”. Um abraço muito especial para o Pedro Soares, o Ricardo Ferreira, o Miguel Freitas, a Carlota Paim, o Pedro Vidal e o Paulo Pereira.

As duas primeiras partes, já emitidas, e as que se seguirão podem ser vistas na página que indico em baixo. 

https://tvi24.iol.pt/dossier/lajes-confidencial/5bd472300cf2223b6a7abc12

 

Almost a year and a half of hard work, but many more of study and investigation that seemed to take me to dead ends only, are now coming to fruition.

I’d like to thank the dozens of individuals who have contributed to the “Lajes Confidential” series of reports that I authored for TVI. A very special thank you is due to Pedro Soares, Ricardo Ferreira, Miguel Freitas, Carlota Paim, Pedro Vidal e Paulo Pereira.

This series reveals the presence of nuclear weapons and nuclear waste at Lajes Field, the US military base at Terceira island, in the Azores, Portugal. Here’s the web page where all the reports can be seen, right after their broadcast.

https://tvi24.iol.pt/dossier/lajes-confidencial/5bd472300cf2223b6a7abc12

 

Anuário de 2017 do CEID

Como já aconteceu em 2015 e 2016, o meu amigo Marcelo Javier de los Reyes convidou-me para contribuir para a mais recente edição do anuário do Centro de Estudios Internacionales para el Desarrollo, sedeado em Buenos Aires, na Argentina.

O meu artigo de 2017 intitula-se “El Pivote Americano para a Europa” e foca um aspecto pouco mencionado da política externa e de Defesa dos EUA: o reforço da sua presença militar na Europa nos últimos anos.

Caso desejem ler o meu artigo e o resto do anuário, que está cheio de textos interessantes, escritos a partir de perspectivas muito diversificadas, basta clicar na ligação abaixo.

Já agora, recomendo vivamente que leiam o artigo sobre a esquadra argentina que deu volta ao Mundo no início do século XIX e que chegou a atacar a Califórnia. É uma história fascinante!

CEID ANUARIO 2017

They’re back…

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De mansinho, sem que se tenha notado por aí além, os Estados Unidos estão a reforçar a sua presença militar na Europa. Mais significativamente, estão a reforçar a sua presença blindada na Europa.

Este gráfico da Statista mostra que o número de carros de combate e viaturas blindadas ainda não é nada por aí além, mas o que importa aqui referir é que, até há poucos meses, ele estava reduzido a zero, ou quase.

Com o pivot estratégico dos EUA para a Ásia, a Europa estava a tornar-se num cenário secundário para Washington – e nós, portugueses, bem o sabemos, por causa do esvaziamento da base das Lajes -, mas agora as prioridades estão a alterar-se novamente.

O que explica esta marcha-atrás?

A Rússia, claro. A invasão da Ucrânia, o envio de forças para a Síria (que é como quem diz, para o Mediterrâneo) e a posição cada vez mais agressiva que Moscovo (muitas vezes por meios encobertos, outras nem tanto assim) vai tendo relativamente aos países bálticos e aos outros estados europeus que estão na sua fronteira europeia, fez tocar as campainhas de alarme no Pentágono e na Casa Branca.

E Trump? O seu “caso” com Putin irá levá-lo a pôr fim a esta “flexão de músculos” na fronteira leste da NATO?

Duvido. Especialmente agora que se confirma que o novo presidente teve uma “mãozinha” de Moscovo para chegar à Casa Branca. Para não se expor a mais críticas, e mesmo a eventuais tentativas de impugnação, Donald Trump terá de mostrar mais distanciamento relativamente à Rússia do aquele que tem tido até agora.

A não ser que Putin ofereça algo que os EUA tenham muita dificuldade em recusar…

 

 

Anuário de 2016 do CEID

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Ano novo, publicações novas – e mais frequentes (espero).

Tal como aconteceu há um ano, tive agora a oportunidade de publicar um artigo no anuário do Centro de Estudios Internacionales para el Desarrollo (CEID), de Buenos Aires, na Argentina.

Desta vez, a propósito do centenário da I Guerra Mundial, escrevi sobre a influência que a comunicação social tem tido na forma como a Guerra tem sido encarada no Ocidente ao longo dos últimos 150 anos.

Antecipando um pouco daquilo que podem ler a partir da página 127 do anuário, a minha ideia-chave é que o jornalismo deu um contributo decisivo para que seja muito difícil, senão impossível, às democracias modernas triunfarem em conflitos armados prolongados.

O anuário tem muita coisa interessante para ler, especialmente porque apresenta uma perspectiva sul-americana dos grandes acontecimentos internacionais, que só ocasionalmente aparece nos debates portugueses e europeus.

O “Anuário 2016” do CEID pode ser descarregado gratuitamente aqui: ceid-anuario-2016