O C-295 da FAP

Para quem quiser saber um pouco mais sobre as características do C-295 da Força Aérea Portuguesa, nada melhor do que ver e ouvir esta apresentação feita por um oficial da FAP durante o Paris Air Show deste ano.

Fonte: StratPost

Nova violação do cessar-fogo na Ucrânia

Flag_of_Ukraine.svg

O aeroporto de Donetsk, no leste da Ucrânia, voltou a fazer jus ao seu estatuto de alvo principal das forças em confronto naquele país.

Imagens obtidas pela agência de notícias Reuters mostram um intenso combate entre forças rebeldes e tropas governamentais, que começa com uma explosão de uma granada de artilharia, seguida de uma troca de fogo de armas automáticas. Mais tarde, um carro de combate e um veículo blindado juntam-se à refrega, disparando em apoio dos separatistas.

Não se sabe se este combate no aeroporto causou vítimas, mas uma coisa é certa: o cessar-fogo acordado em Minsk, na Bielorrússia, em fevereiro, é cada vez mais uma ficção.

A zona de Donetsk, em especial, tem sido palco de confrontos quase diários. Na quarta e na quinta-feira, por exemplo, morreram três civis e dois soldados fiéis ao governo de Kiev.

É por tudo isto que os observadores internacionais temem cada vez mais um recrudescimento do conflito, que estilhace de uma vez por todas o acordo de Minsk.

http://www.tvi24.iol.pt/internacional/donetsk/nova-violacao-do-cessar-fogo-na-ucrania

Mediterrâneo: o mar da morte

Nos últimos quatro anos, o mar Mediterrâneo tornou-se numa armadilha mortal para milhares de imigrantes que procuravam uma vida melhor na Europa. Os naufrágios sucedem-se com uma frequência aterradora, mas nem assim eles deixam de vir, e cada vez mais. O risco de morrer no mar é menos mau do que aquilo que deixam para trás, nas suas terras.

A situação não é nova, embora assim o pareça para muitas pessoas, algumas das quais têm obrigação de estar mais bem informadas.

Desde que a vaga das descolonizações em África nos anos 60 e 70 do século XX deu lugar a inúmeras ditaduras, perseguições e guerras, que centenas de milhares de africanos procuram, todos os anos, entrar na Europa.

Muitos conseguem-no, mas muitos mais são os que ficam pelo caminho, por um motivo ou por outro.

As vias de entrada mais tradicionais passavam pelas redes informais e familiares, em que alguém conhecido, já instalado, ajudava quem vinha, normalmente de avião e com vistos de curta duração que depois davam lugar a uma permanência ilegal. Para os mais desesperados, ou sem outros meios de viagem, havia as redes de imigração clandestina, que introduziam milhares de pessoas através dos Balcãs, uma zona da Europa onde o crime organizado tem muito poder e onde os estados tendem a ser mais fracos.

Quem se lembra agora dos casos frequentes de imigrantes que apareciam mortos dentro de contentores TIR transportados por camiões ou navios?

Estas vias de entrada continuam activas, como é natural, mas agora passam despercebidas face ao drama que se vive diariamente no mar Mediterrâneo. O caminho mais curto entre a África e a Europa passou sempre por aí, mas, no passado, era raramente usado pelos traficantes de pessoas. No seu ponto mais estreito (excluindo o estreito de Gibraltar), a separação entre os dois continentes não vai além de umas poucas centenas de quilómetros, e as condições do mar são bastante favoráveis a uma travessia em grande parte do ano.

O que impedia a utilização desta via era o facto de os estados do Norte de África serem relativamente fortes e organizados e, por isso, capazes de controlar bem as suas fronteiras marítimas.

Tudo isso mudou a partir de 2011, com a Primavera Árabe. No espaço de poucos meses, as ditaduras que controlavam há décadas o Egipto, a Líbia e a Tunísia caíram com grande estrondo. Após grandes tumultos políticos e muita violência, os egípcios voltaram a ter uma ditadura militar em tudo semelhante à que tinham antes da revolução e os tunisinos conseguiram estabelecer um regime relativamente democrático e estável, mas nada disso aconteceu no caso líbio.

Depois da deposição e do assassínio do coronel Khadafi, o homem que tinha dirigido o país com mão de ferro desde 1969, rebentou uma guerra civil cujo desfecho é muito incerto. O Ocidente apoiou militarmente as forças rebeldes, no pressuposto de que estas iriam instaurar uma democracia, mas o que aconteceu foi exatamente o oposto.

Nesta altura, a Líbia é um estado falhado onde não há qualquer controlo eficaz e centralizado das fronteiras terrestres e marítimas. Isto significa que os traficantes de pessoas podem atuar com total impunidade, trazendo milhares de pessoas através do deserto, até à costa. Aí, são embarcadas em navios de pesca ou de carga em mau estado, ou mesmo em pequenas embarcações de madeira ou de borracha.

Consoante o dinheiro disponível, o imigrante poderá viajar num bote ou num navio. Se tiver alguns milhares de euros, atravessa no Verão, quando o mar está mais calmo e os riscos são menores; se tiver apenas umas centenas, só pode viajar no Inverno, quando o naufrágio é muito mais provável.

Mas de onde vem toda essa gente?

O maior grupo vem da Síria, que está mergulhada numa guerra civil sem fim à vista e que já causou a morte a mais de cem mil pessoas. Mais de 3,5 milhões de sírios procuraram refúgio na Turquia, no Líbano, na Jordânia e noutros países. Daí, os que têm algum dinheiro, procuram, em muitos casos, chegar à orla do Mediterrâneo para atravessar para a Europa. Eles sabem que têm muito mais probabilidades de obter asilo político do que os outros imigrantes, que vêm de África.

É nesse último grupo que está a grande maioria das vítimas dos naufrágios.  Como, na maioria dos casos, não podem pagar muito, é para eles que estão reservadas as piores embarcações. Os imigrantes africanos vêm essencialmente da África Central e do Corno de África, de países como o Mali, Chade, Somália e Eritreia.

É deste último país que vem o segundo maior grupo de imigrantes. O comum dos europeus pouco ou nada sabe da Eritreia, mas este é um dos estados mais repressivos de África, senão mesmo do mundo. Os jovens de ambos os sexos têm de cumprir serviço militar, que muitas vezes se prolonga de forma indefinida num regime de semi-escravatura. Por isso, todos os anos milhares de eritreus atravessam o deserto do Saara em direção à costa líbia.

Esse é também o percurso feito por malianos, somalis, chadianos, senegaleses, costa-marfinenses, a que se juntam paquistaneses, afegãos, bangladeshis e outros imigrantes provenientes da Ásia. Todos eles fogem da guerra, da pobreza ou de ambas.

Em muitos casos, há um elemento comum: o extremismo islâmico, que causa ou agrava conflitos em sítios tão díspares como a África Central e o Sul da Ásia. São as depredações do Boko Haram no Mali, no Chade e na Nigéria que empurram muitos milhares de pessoas para fora desses países; o mesmo se passa na Síria e na Líbia, com o Estado Islâmico, e no Afeganistão e no Paquistão, com os Taliban.

Durante décadas, as ditaduras que vigoravam no Norte de África serviram de tampão para essas torrentes migratórias, pelo menos reduzindo o seu caudal. O problema é que pouco ou nada foi feito pelos países europeus para atacar as causas que levam à existência dessas torrentes. Agora que se abriu um buraco no “muro” da margem sul do Mediterrâneo – e nada garante que não surjam mais -, a Europa vê-se inundada de imigrantes.

A travessia do Mediterrâneo pode continuar a matar milhares, mas eles continuarão a vir. Disso não há dúvida.

Resta a saber o que nós, europeus, estamos dispostos a fazer por eles.

Este post reproduz o artigo que escrevi para o número de junho da revista “Família Cristã”.

Relações EUA – Cuba: 50 anos depois, o degelo

Em dezembro de 2014, o presidente dos Estados Unidos deu um passo histórico: anunciou que o seu governo estava preparado para restabelecer relações diplomáticas com Cuba. Após mais de 50 anos de inimizade, que incluiu uma tentativa de invasão a partir de solo norte-americano e conspirações para assassinar o líder cubano, Fidel Castro, os EUA reconheciam assim que a sua política de bloqueio já não faz sentido.

O primeiro sinal público de que algo iria acontecer veio ainda em 2013. No funeral de Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e líder do movimento de luta contra a segregação racial, Barack Obama cumprimentou Raúl Castro, o presidente de Cuba, e trocou algumas palavras com ele.

O encontro teve tanto de inopinado como de surpreendente. Desde 1956 que os líderes dos dois países não se encontravam frente a frente. Hoje, sabemos que esse pequeno, mas muito significativo gesto, mais não era do que o primeiro sinal público de uma aproximação que vinha sendo preparada há bastante tempo nos bastidores.

Já em abril deste ano, deram-se mais dois passos muito significativos: os dois presidentes voltaram a encontrar-se, e desta vez não se ficaram por um cumprimento de circunstância. Houve uma reunião formal à margem da Cimeira das Américas, no Panamá, que provavelmente contribuiu para o passo seguinte, que foi dado dias depois pela administração norte-americana: a apresentação de um pedido formal ao Congresso para que Cuba seja retirada da lista dos países que apoiam o terrorismo, algo que se concretizou mo final de maio.

Barack Obama nunca escondeu que achava que a política seguida pelos Estados Unidos relativamente a Cuba desde os anos 60 do séc. xx era não só errada como contraproducente. Nada, aliás, que quase todos os presidentes norte-americanos dos últimos 40 anos não pensassem também, sendo certo que nunca sentiram que tivessem condições políticas para alterar essa política.

O problema de fundo era (e ainda é) eleitoral: os americanos de origem cubana têm um enorme peso no estado da Flórida, porque foi aí que centenas de milhares de exilados da ilha se refugiaram quando os comunistas tomaram o poder, em 1959; como a Flórida é um estado chave na decisão das eleições presidenciais norte-americanas, nenhum presidente ou candidato a tal cargo se atrevia a ir contra o credo dos exilados.

No mínimo dos mínimos, os EUA teriam de manter um bloqueio económico, político e diplomático total em relação a Cuba, e essa foi, no essencial, a política seguida desde 1962.

À medida que o novo governo de Havana se foi aproximando da União Soviética, os EUA foram endurecendo a sua atitude. Essa evolução atingiu o seu ponto culminante com a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e com a Crise dos Mísseis Cubanos, em 1962.

No primeiro caso, a CIA treinou e equipou uma força de exilados anticomunistas, que tentaram invadir a ilha a partir de território norte-americano. O golpe fracassou e a administração do presidente Kennedy sofreu um grande embaraço, que teve consequências duradouras. O governo norte-americano nunca mais apoiou iniciativas desse tipo, e só considerou seriamente um ataque de larga escala contra Cuba numa outra ocasião: quando, no ano seguinte, os soviéticos instalaram mísseis nucleares na ilha.

A partir daí, os EUA optaram por ações menos visíveis, de que se destacam diversas tentativas de assassinato de Fidel Castro. Uma investigação do Congresso dos EUA determinou que, entre 1960 e 1965, a CIA organizou pelo menos oito operações deste tipo, algumas das quais terão mesmo contado com a colaboração da Máfia norte-americana.

Nos anos 70 e 80, os governos norte-americanos parecem ter deixado a violência de lado, mas mantiveram o bloqueio económico à ilha. Na prática, isso significou que os cubanos têm tido um acesso muito limitado aos mercados económicos e financeiros mundiais, o que trouxe enormes carências à população.

Enquanto a União Soviética existiu, parte dessas dificuldades foram sendo amenizadas pelo enorme apoio dado pelo governo de Moscovo, mas depois de 1991 o regime cubano ficou por sua conta.

Durante tudo isto, o regime comunista nunca pareceu ter estado seriamente ameaçado internamente. Apesar de o governo de Fidel Castro ter cometido enormes erros económicos, que custaram muito ao povo cubano, o bloqueio norte-americano serviu como justificação para quase tudo o que corria mal na ilha.

Assim, em vez de enfraquecer o regime, o bloqueio acabou por o fortalecer.

Obama percebeu isso mesmo e decidiu arriscar uma mudança radical de rumo, mas só a sua vontade não é suficiente. Ao presidente dos Estados Unidos cabe gerir a política externa do país, mas só o Congresso pode levantar o embargo comercial. Aí, a maioria pertence à oposição republicana, e sabe-se que muitos desses congressistas e senadores estão contra o fim do bloqueio.

De qualquer modo, o processo de abertura já começou. Algumas das muitas limitações que existiam nas viagens e comunicações entre os dois países foram levantadas. Hoje, já há milhares de norte-americanos a visitar Cuba todos os meses, algo que seria impensável até ao ano passado. Muitas empresas já começaram a preparar a sua entrada naquele país, e é certo que, assim que o embargo for levantado, haverá uma autêntica invasão de empresários dos Estados Unidos e de outras partes do mundo.

A economia de Cuba sofrerá uma grande transformação, e o mesmo acontecerá fatalmente com a sua sociedade. Mais tarde ou mais cedo, a política terá de acompanhar essa mudança e, então, talvez se verifique aquilo que muitos opositores do bloqueio dizem há muito tempo: que o comunismo em Cuba desaparecerá quando os Estados Unidos deixem de travar a entrada dos seus produtos, das suas ideias e do seu modo de vida em Cuba.

Afinal, só há mesmo 140 quilómetros a separar os dois países.

O Mundo à beira da guerra

Cuba tem tido uma importância desproporcional face ao seu tamanho, população ou riqueza, em grande medida, pela sua situação geográfica (está a pouco mais de 100 quilómetros dos Estados Unidos), e isso nunca foi mais visível do que em 1962, quando a União Soviética instalou mísseis nucleares em solo cubano.

Ciente de que, se permitisse essa situação, os EUA não teriam capacidade de reagir em tempo útil a um eventual ataque atómico da URSS, o governo do presidente Kennedy lançou um ultimato ao executivo de Moscovo, liderado por Nikita Khruschev: ou os soviéticos retiravam os mísseis ou haveria guerra.

Perante a hipótese de um conflito nuclear iminente, Khruschev recuou e ordenou o regresso dos navios.

Foi assim que o mundo se salvou da aniquilação, e nunca estivemos tão perto dela como nesses dias de outubro de 1962.

Este post reproduz, com pequenas alterações, o artigo que escrevi para o número de maio da revista “Família Cristã”.

Rússia e Ucrânia: entrevistas a Fogh Rasmussen e Kasparov

Na quinta-feira passada, entrevistei Garry Kasparov, um dos principais lideres da Oposição russa, e Anders Fogh Rasmussen, ex-secretário-geral da NATO, aquando da sua passagem pelas Conferências do Estoril. Aqui ficam alguns excertos dessas conversas, no que à Rússia e à Ucrânia dizem respeito.

Rússia: entre a espada e o petróleo

A Rússia é o maior produtor mundial de petróleo e o segundo maior de gás. Graças a esses trunfos, o presidente Vladimir Putin tem conseguido manter-se popular dentro de portas, ao mesmo tempo que, fora delas, vai condicionando vizinhos e adversários que dependem dos fornecimentos energéticos russos. Agora, tudo isso pode mudar. O preço do crude está a metade do que era há um ano e não é previsível que isso mude muito. A Rússia pode vir a enfrentar uma grande crise económica e política.

O petróleo e o gás natural representam dois terços das exportações da Rússia e metade das receitas do estado. Estes dois números dão bem a dimensão da dependência que o país tem relativamente a estes dois produtos.

Graças a eles, a Rússia compensou parte da perda de poder que teve depois da extinção da União Soviética. Num país onde muita da indústria se tornou pouco competitiva, ou mesmo obsoleta, e onde a população só agora começa a recuperar (muito ligeiramente) de uma queda catastrófica de 15 anos, o elevado preço do petróleo que se registou até ao início de 2014 (mais de 100 dólares por barril) possibilitou que os governos de Vladmir Putin tomassem medidas populares em termos de salários e pensões, que aumentaram o poder de compra de grande parte dos cidadãos.

Se o petróleo e o gás fortaleceram o poder interno do regime, também não deixaram de fazer o mesmo externamente. Graças ao forte controlo estatal exercido sobre as empresas do setor energético (os empresários que não alinhavam com as políticas do Kremlin foram parar à cadeia ou ao exílio), o governo de Moscovo vem travando autênticas guerras económicas com os países vizinhos que têm a veleidade de manter alguma espécie de autonomia face à Rússia.

O caso mais notório, que se mantém até hoje, é o da Ucrânia, que, muito antes de ser invadida por tropas russas, já era assediada quase todos os invernos pelos cortes de fornecimento de gás natural russo, deixando grande parte da sua população numa situação humanitária difícil. Casos como o da Bielorrússia e dos países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia) não têm sido tão extremos, mas nem por isso deixam de ser graves, e houve mesmo alturas em que muitos outros países europeus sofreram quebras no abastecimento, muito embora não estivessem envolvidos nas aparentes disputas de preços e pagamentos que levavam a Rússia a tomar essa medida extrema.

Além disso, com as enormes receitas proporcionadas pelo crude e pelo gás (no caso do petróleo, o preço esteve acima dos 100 dólares por barril durante anos), Putin pôde iniciar um  ambicioso programa de modernização militar que lhe permitiu adotar políticas cada vez mais agressivas nas franjas do seu território.

Um primeiro ensaio deu-se na Geórgia, em 2008, quando forças russas esmagaram em poucos dias uma tentativa georgiana de derrotar os rebeldes pró-russos da Ossétia do Sul. O segundo caso, bem mais sério, é o do leste da Ucrânia, onde separatistas apoiados por tropas russas combatem, desde o ano passado, as forças do governo de Kiev.

Este conflito levou a Europa e os Estados Unidos a imporem sanções económicas severas à Rússia. Dada a grande integração do país na economia mundial, os efeitos dessas medidas não podem ser subestimados. No final de 2014 e no início de 2015, a Rússia sofreu uma crise cambial muito grave, com a sua moeda, o rublo, a sofrer uma enorme desvalorização. Durante alguns dias, pareceu mesmo que o governo e o banco central tinham perdido o controlo da situação, mas depois conseguiram estabilizá-la, muito graças às enormes reservas de moeda estrangeira que foi possível acumular durante o período de “vacas gordas”.

De qualquer forma, há outro problema muito grave que permanece, e que parece ser duradouro: o preço do petróleo caiu para metade do que era há cerca de um ano (ronda agora os 50 dólares por barril), o que significa que as receitas do estado russo estão a sofrer um enorme rombo que não pode ser tapado (ver caixa).

Se a situação económica russa se degradar muito – o que é bem provável -, a contestação interna também aumentará. Aí, a resposta de Putin, poderá ir num de dois sentidos: apaziguamento interno e recuo externo, ou um novo salto em frente nas ambições expansionistas russas, que são bem vistas pelo grosso da população.

Para o homem que considerou a queda da União Soviética como a “a maior tragédia geoestratégica do século XX”, o recuo não parece ser uma opção. Vladimir Putin não descansará até ver a Rússia retomar as fronteiras, ou pelo menos a esfera de influência, da antiga União Soviética.

Essa poderá não ser tarefa para uma só vida, mas se o seu principal meio económico e estratégico para a concluir lhe começar a falhar, Putin poderá muito apostar tudo ou nada numa cartada final que pode ser trágica para o Mundo.

 

O mundo da energia de cabeça para baixo

Na última década, o preço do petróleo foi muitas vezes empurrado para valores estratosféricos por causa de fatores geoestratégicos mais ou menos transitórios (a invasão do Iraque, o conflito dos EUA com o Irão, a incapacidade do governo venezuelano em manter a produção do país, entre outros), mas também por causa de um problema de fundo que, tudo parecia indicar, era permanente. Falo da redução das reservas petrolíferas mundiais, ou pelo menos daquelas que era fácil e barato e explorar.

As jazidas que iam sendo descobertas estavam quase sempre situadas no mar, a enormes profundidades, o que implicava investimentos gigantescos para a sua exploração e, logo, um preço do produto mais elevado. A era do petróleo barato parecia ter chegado ao fim e o mundo começava a virar-se com mais força do que nunca para as energias renováveis.

Como tanto mudou em tão pouco tempo!

Como tem acontecido muitas vezes ao longo da História, a tecnologia veio mudar completamente o cenário. Neste caso, foram as novas técnicas de extração de petróleo e de gás das formações rochosas de xisto.

Já há muito que era sabido que esses hidrocarbonetos estavam presentes um pouco por todo o lado, mas ninguém tinha percebido como podia ser possível retirá-los de uma forma economicamente compensadora.

A solução, encontrada nos Estados Unidos, ficou conhecida como fracking e permite retirar muito gás e petróleo, de milhares de sítios, com custos muito baixos. É por isto que, em poucos anos, os EUA deixaram de ser o maior importador de energia do mundo e tornaram-se autossuficientes. A consequência lógica foi a descida acentuada das cotações do crude e do gás, que foi ainda potenciada pela decisão da Arábia Saudita de não baixar a sua produção.

Como é fácil de ver, os países muito dependentes das receitas petrolíferas estão a sofrer muito com esta nova situação. A Rússia de Putin tem vivido e prosperado pelo petróleo; agora, pode bem morrer por ele.

Este texto reproduz, com alterações mínimas, o artigo que escrevi para o número de Abril da revista “Família Cristã”

Trovão a Leste

Russos na Ucrânia

11070849_10153152045671718_4398155857176671550_n

Fonte: RUSI

Na hora do terror: a Europa e o extremismo islâmico

Escrevo estas linhas a 7 de janeiro de 2015, poucas horas depois de dez jornalistas e dois polícias terem sido assassinados por três extremistas islâmicos em Paris.

O que motivou este crime, nas palavras de quem o cometeu, foi o desejo de vingança. Vingança pelas ofensas que os jornalistas do semanário satírico Charlie Hebdo teriam cometido contra o profeta Maomé – a publicação de caricaturas em que ele surge retratado de uma forma considerada desrespeitosa ou mesmo insultuosa.

Esse tipo de desenhos sempre foi o esteio do sucesso do Charlie Hebdo. O que os seus caricaturistas fizeram nos últimos anos com Maomé e o Islão, já tinham feito muitas outras vezes com Cristo, o Papa, a Igreja Católica e a religião em geral.

Desta vez, no entanto, tudo foi diferente.

Desde 2006 que a publicação vinha sendo alvo de ameaças de extremistas islâmicos. Foi nesse ano que o Charlie Hebdo seguiu o exemplo do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, publicando desenhos satíricos do profeta Maomé. Os responsáveis pelo jornal assumiram essa atitude como um desafio direto aos fundamentalistas que vinham, através de ameaças e atos violentos, procurando condicionar a liberdade da imprensa ocidental em abordar todos os temas relacionados com o islamismo.

Já em 2011, os escritórios do Charlie Hebdo tinham sido destruídos por uma bomba incendiária. O diretor da publicação, Charb, recebia ameaças de morte constantes e tinha proteção policial. Quando, um dia, lhe perguntaram se não tinha medo, respondeu: «Prefiro morrer de pé, do que viver de joelhos.»

E foi isso mesmo que aconteceu.

O grau de liberdade de uma sociedade mede-se sempre pelo grau de proteção de que as opiniões minoritárias usufruem, mesmo que estas sejam ofensivas para a maioria. Sem essa liberdade, não há evolução, nem progresso, porque a opinião minoritária de hoje é, muitas vezes, a verdade evidente de amanhã.

Os fundamentalistas islâmicos beneficiam deste direito fundamental nas sociedades democráticas, mas recusam terminantemente que ele seja válido para quem pensa de forma diferente da deles. A sua visão da religião e do mundo é absolutamente estática. Para eles, tudo o que o que precisam de saber pode ser retirado do seu texto sagrado, o Corão, através de uma leitura literal. O crente só tem de seguir os preceitos ali expostos, tal e qual como foram escritos há mais de 1600 anos.

Atualizar a interpretação das palavras do profeta é cair na blasfémia, que tem de ser punida da forma mais severa. As únicas exceções para esta visão estática do Corão são as que decorrem da necessidade de justificar ideias e atos extremistas, que não têm qualquer fundamento no texto sagrado. É assim que a jihad passa de uma luta interior de cada crente a uma guerra de todos os crentes contra os infiéis; e é assim que o preceito maometano que recomenda modéstia na apresentação da mulher se transforma numa imposição para que ela esteja coberta da cabeça aos pés.

É esta visão simultaneamente estrita e deturpada do islamismo que é defendida pela Al Qaeda, pelo Estado Islâmico do Iraque e da Síria e por milhares de muçulmanos que vivem em França, na Grã-Bretanha, na Alemanha e em muitos outros países europeus. Mesmo em Portugal parecem já existir alguns adeptos desta visão religiosa.

O terrorismo é a face mais visível da campanha deste movimento para se impor, mas ela assume muitas outras facetas, porventura até mais eficazes. Uma delas já mencionámos: as campanhas contra pessoas e entidades que se atrevam a veicular qualquer opinião que contrarie os princípios fundamentalistas. Mesmo quando não passam de palavras (o que acontece na esmagadora maioria dos casos), o medo que geram condiciona muitas vezes a livre discussão em torno da religião e dos muçulmanos na Europa.

Esse medo, somado aos mil cuidados com que as minorias religiosas são tratadas pelos governos no Ocidente desenvolvido, devido ao receio de que haja acusações de discriminação por parte destas, faz com que, em muitos casos, os fundamentalistas tenham uma liberdade de ação na Europa que seria impensável noutras partes do mundo, e especialmente nos países árabes e africanos de onde muitos são originários.

É por isso que na Grã-Bretanha, por exemplo, há vários imãs (líderes religiosos) que pregam abertamente o extremismo e defendem ações terroristas lançadas contra o próprio país que os acolheu.

Ou seja: não há sítio onde os fundamentalistas tenham mais liberdade para falar contra os países democráticos do que nos próprios países democráticos.

Outros dos métodos usados pelos fundamentalistas para aumentar o seu poder e influência na Europa é o controlo direto dos bairros e das localidades onde os muçulmanos se concentram. Isso é feito muitas vezes através de “patrulhas” de fundamentalistas que bloqueiam o acesso a essas zonas por parte de todas as pessoas exteriores à comunidade, e que também se certificam que os residentes cumprem a Sharia (a lei religiosa). No caso das mulheres, isso implica que só possam sair à rua devidamente cobertas.

Como as autoridades se têm mostrado muitas vezes incapazes de lidar com este fenómeno, a população não muçulmana, que já tende, em muitos casos, a olhar com suspeita para os imigrantes, reage com agressividade crescente à presença islâmica. As manifestações xenófobas aumentam em número e em participação.

Esta situação é especialmente grave em França, na Alemanha e na Grã-Bretanha, os países europeus que têm mais muçulmanos, mas também em estados mais pequenos e tradicionalmente liberais, como a Holanda e a Suécia, se verifica um aumento significativo do número de cidadãos que acha que há muçulmanos a mais e que está na hora de limitar os seus direitos. A construção de mesquitas e de outros edifícios ligados ao islamismo é cada vez mais contestada.

Na hora do voto, isto traduz-se no reforço dos partidos da extrema-direita, como é o caso da Frente Nacional francesa, a quem as sondagens atribuem pelo menos 20% do eleitorado. A incapacidade das democracias liberais em defender os seus próprios valores perante quem deles abusa para depois os combater acaba por fortalecer os extremismos – quer o islâmico, quer o da extrema-direita nacionalista e xenófoba.

Os governos europeus, e principalmente a grande maioria dos muçulmanos, que é pacífica e se procura integrar nas sociedades de acolhimento, têm de ser capazes de separar com mais firmeza “o trigo do joio”. A liberdade de expressão e de culto não pode ser usada para incentivar ações contra a vida e as liberdades das pessoas que professam uma religião diferente – ou até que não professam religião alguma.

O respeito pelos valores alheios nunca deve preceder o respeito pelos próprios valores. Isso tem sido por vezes esquecido na Europa e as consequências podem ser dramáticas.

Entretanto, no resto do Mundo…

Os ataques terroristas de Paris tiveram grande repercussão mundial e geraram uma enorme onda de repúdio, mas estão muito longe de ser os atos mais sangrentos cometidos por extremistas islâmicos nos últimos meses.

Poucos dias antes, no norte da Nigéria, o grupo Boko Haram arrasou a cidade de Baga e chacinou a população. Alguns cálculos indicam que morreram cerca de duas mil pessoas. Na mesma altura, duas meninas com cerca de 10 anos de idade foram usadas para transportar bombas, que detonaram em mercados cheios de gente, causando dezenas de mortes.

Na Síria e no Iraque, a situação é ainda pior, com o Estado Islâmico a controlar boa parte do território de ambos os países e a impor a Sharia com extrema violência e crueldade. O número total de vítimas é incerto, mas anda na casa das muitas dezenas de milhares. A grande maioria são muçulmanos, uma realidade muitas vezes esquecida quando se fala do extremismo islâmico.

A verdade é que, para cada europeu ou norte-americano que morre às mãos de extremistas islâmicos, há centenas de muçulmanos que passam pelo mesmo tormento.

Este post reproduz, com pequenas alterações, o artigo que escrevi para o número de Fevereiro de 2015 da revista “Família Cristã”.

Incursões russas: o império contra-ataca

Há mais de 20 anos que nada semelhante acontecia: em finais de outubro, bombardeiros russos, apoiados por aviões de reabastecimento, voaram muitos milhares de quilómetros até perto da costa portuguesa.

A situação repetiu-se duas vezes no espaço de poucos dias e, em ambos os casos, caças F-16 da Força Aérea Portuguesa interceptaram as aeronaves russas e escoltaram-nas até deixarem o espaço aéreo internacional que está sob responsabilidade portuguesa.

Em nenhuma das situações os bombardeiros entraram no espaço aéreo de Portugal propriamente dito, o que, se tivesse acontecido, seria uma grave violação das regras. Em última análise, num caso desses, os aviões russos até poderiam ser abatidos.

O que os Tupolev 95 fizeram não é ilegal, mas a verdade é que também não podemos classificar o seu voo como um passeio inocente. Os russos não comunicaram antecipadamente o que iriam fazer, não estabelecerem contacto com os controlos aéreos responsáveis pelas áreas que atravessaram (e lembre-se que contornaram toda a Europa Ocidental) e desligaram os dispositivos que permitem que os os aviões sejam mais facilmente detectados e identificados a partir de terra.

Em suma: este comportamento só pode ser qualificado como não amigável, tanto mais que surge na sequência de muitos casos semelhantes no norte da Europa. No último ano, o número de voos militares russos junto dos espaços aéreos de países como a Estónia, Letónia, Lituânia, Noruega, Suécia e Grã-Bretanha subiu de forma muito assinalável, atingindo níveis só vistos no tempo da União Soviética.

Em alguns casos, os aviões russos foram interceptados por caças portugueses que estão a cuidar da defesa aérea dos países bálticos. Lituânia, Letónia e Estónia têm forças aéreas muito reduzidas e, por isso, dependem dos seus parceiros da NATO para a fiscalização do seu espaço aéreo. Nos últimos quatro meses de 2014, o comando da força da Aliança Atlântica que tem essa tarefa coube precisamente a Portugal.

As incursões russas não se ficaram pelo ar. Também no mar se registaram situações deste tipo, e uma delas envolveu Portugal. Poucos dias depois de os bombardeiros Tupolev terem voado até junto da nossa costa, um navio hidrográfico da marinha russa, vindo do mar Mediterrâneo, entrou na Zona Económica Exclusiva (ZEE) portuguesa.

Tal como aconteceu com os aviões, o navio “Sibiryakov” também acabou por ser escoltado – no caso, por uma corveta da Armada – até abandonar a ZEE de Portugal. Como a embarcação não entrou em águas territoriais, nem efetuou, que se saiba, qualquer pesquisa na zona económica exclusiva, também aqui não há nenhuma ilegalidade a apontar.

Muito mais grave foi o que se passou na Suécia algumas semanas antes. Várias testemunhas indicaram ter visto um submarino nas águas costeiras próximas de Estocolmo, a capital do país. A marinha sueca mobilizou-se durante uma semana para encontrar esse submarino, mas sem sucesso. Todavia, recolheu dados suficientes para poder concluir que uma embarcação desse tipo esteve mesmo na zona indicada.

O governo de Moscovo desmentiu que tivesse alguma coisa a ver com o assunto, mas não restam grande dúvidas de que esse submarino seria russo. Durante a Guerra Fria, era habitual haver incursões do mesmo género por parte da marinha soviética.

O que se pode concluir de tudo isto? O que leva o presidente Vladimir Putin, quase 25 anos depois do fim da União Soviética, a querer replicar velhos hábitos comunistas?

Para além da necessidade meramente militar de testar as defesas e velocidade de reacção de um potencial inimigo, a resposta a esta pergunta tem mais duas componentes – uma estrutural e outra conjuntural. Por um lado, a intervenção militar russa na Ucrânia, que visa manter o país sob a esfera de influência de Moscovo, pode levar a Europa e os Estados Unidos a querer ajudar de forma mais activa o governo de Kiev. Com estas incursões, o governo russo passa uma mensagem clara: “Mantenham-se longe do nosso quintal” – e é assim que Moscovo vê a Ucrânia -, “senão teremos problemas”.

Do ponto de vista mais estrutural, as entradas russas no espaço aéreo e marítimo ocidental são um sinal de que a grande estratégia russa passa pela reconquista dos espaços de influência e das capacidades de acção que pertenciam à antiga União Soviética.

Para conseguir isso, Putin tem de neutralizar a oposição ocidental, especialmente a dos Estados Unidos. Ciente de que a Europa não tem capacidade, nem vontade de fazer uma oposição mais “musculada” aos seus planos na Europa de Leste, Putin sabe que uma postura mais agressiva pode, por enquanto, trazer-lhe mais benefícios do que prejuízos.

Incursões a longa distância das suas forças aéreas e navais são um meio relativamente barato e seguro de criar algum alarme entre populações e governos que se julgavam imunes a potenciais represálias russas. O objectivo último, claro está, é diluir cada vez mais a vontade dos europeus de travar novos avanços russos nas franjas do antigo império soviético.

Não é por acaso que países como a Polónia, que sabem exactamente o que é que significa fazer parte de um tal império, vêem com muito alarme o que se está a passar e clamem por uma tomada de posição mais agressiva por parte da União Europeia. Esse mesmo tem sido o discurso de Donald Tusk, o ex-primeiro-ministro polaco que acaba de assumir o cargo de presidente do Conselho Europeu.

Perante a incapacidade da política e da diplomacia para travarem os intuitos expansionistas russos, alguns países preparam-se para mudar de vida: a Suécia, por exemplo, depois de muitos anos de desinvestimento nas forças armadas, voltou a aumentar o orçamento para Defesa, e a Finlândia, um país historicamente neutro, começa a discutir a possibilidade de pedir adesão à NATO.

Tudo isto mostra que a situação no Leste da Europa está cada vez mais instável e perigosa. Se os países democráticos da Europa não se entenderem depressa sobre a melhor forma de enfrentar a política expansionista e agressiva da Rússia, Putin sentir-se-á encorajado a arriscar cada vez mais.

Até onde poderá ir, ninguém sabe. Talvez nem ele próprio.

Porquê Portugal? Porquê agora?

A notícia de que aviões militares russos (e mais tarde um navio) estiveram a poucas centenas de quilómetros da costa de Portugal causou, naturalmente, bastante admiração no país.

A pergunta que surgiu na mente de muitas pessoas, e também na comunicação social, foi se haveria alguma razão especial que justificasse esta visita.

Afinal, nem Portugal é propriamente uma grande potência militar, nem as nossas relações com a Rússia têm sido assim tão complicadas.

Tudo verdade, mas é preciso não esquecer que Portugal faz parte da NATO, a aliança que maiores obstáculos coloca aos planos de Vladimir Putin. As incursões aéreas e navais russas visam aquilatar até que ponto as defesas da NATO são eficazes e, simultaneamente, criar algum efeito psicológico nas populações locais que possa debilitar a capacidade dos governos para tomar acções contra a Rússia.

Há ainda uma outra possibilidade que pode ser considerada. O facto de Portugal ter liderado a missão de policiamento aéreo nos países bálticos durante a segunda metade de 2014, durante a qual aviões de combate portugueses procederam a várias intercepções de aeronaves russas, pode ter motivado o governo de Moscovo a enviar uma “mensagem” ao governo português que pode ser traduzida nesta simples fórmula: “Se vocês actuam militarmente junto às nossas fronteiras, nós também podemos fazer o mesmo junto às vossas”.

Este post transcreve com alterações mínimas o artigo que publiquei no número de Janeiro da revista “Família Cristã”.