Category Archives: Espionagem

Comunicações (in)seguras

Parece que a presidenta Dilma (sigo o estilo preferido pela própria) continua zangada com a espionagem norte-americana às comunicações brasileiras. Por isso, o Brasil chegou na segunda-feira passada a acordo com a União Europeia para a colocação de um novo cabo submarino que o ligue à Europa. Só assim, diz Dilma, se pode “garantir a neutralidade” da Internet.

Por estranho que possa parecer, o Brasil depende quase totalmente de cabos norte-americanos para garantir as suas comunicações com a Europa. A ligação directa que existe está, pelos vistos, ultrapassada e serve apenas para comunicações telefónicas.

Bem, se Dilma pretende fugir ao controlo da NSA, talvez seja melhor pensar duas vezes. Diversificar redes é sempre bom, mas se espera ter mais segurança do lado europeu, talvez esteja a iludir-se. O novo cabo vai ter Lisboa como ponto de amarração europeu, e é bem sabido que Portugal é um dos locais onde a NSA faz a sua intercepção global de comunicações. Pelo menos é o que nos diz mais um dos documentos secretos da agência que foram divulgados por Edward Snowden nos últimos meses.

Este mapa mostra que Portugal tem três estações de amarração: Lisboa, Seixal e Sesimbra. O slide da NSA não deixa claro em que ponto exacto do território português se situa o posto de intercepção da agência norte-americana, mas, dada a natureza fechada das comunicações por cabo, o lógico é que a NSA tenha acesso a todas as estações. Se ele é consentido pelo governo português ou clandestino, é outra conversa, embora eu esteja inclinado para a primeira hipótese. Por alguma coisa Portugal está no segundo grupo de países em que os EUA mais confiam no que diz respeito ao acesso e à troca de comunicações/informações.

É claro que basta olhar para o mapa mundial dos cabos submarinos para perceber que o Brasil não tem muitas alternativas a Portugal para a sua ligação transatlântica. Todos os outros cabos vão ter a um de dois países: Grã-Bretanha e Espanha. Como é fácil de calcular, ambos têm também “orelhas” da NSA aí instaladas, e por muitos protestos públicos que haja, não se prevê que isso mude.

Moral da história: a geografia é tramada e a NSA está em todo o lado.

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A propósito da das escutas da NSA

Toda a gente espia.

Uns mais, outros menos, consoante os meios e a oportunidade.

Os EUA espiam mais do que todos os outros países juntos porque, enfim… podem.

Nenhuma superpotência que o queira continuar a ser se pode dar ao luxo de não tentar saber o que todos os outros – amigos ou inimigos – andam a fazer.

É assim a natureza das coisas. A conquista e a manutenção do poder têm este custo.

Periodicamente, escândalos como o que agora atinge a NSA vêm a lume. Os escutados manifestam a sua indignação e exigem reparação; quem escuta promete acabar com os abusos e faz juras de amizade eternas. Nalguns casos, até professa ignorância sobre a matéria – e até pode nem estar a mentir.

Passado o período de nojo adequado, o caso é calmamente atirado para os arquivos e para o esquecimento. É que, afinal, pelo menos entre governos, não há ingénuos nem inocentes nesta matéria.

Mesmo nos países democráticos, onde há leis que regulam estas coisas, há sempre uma maneira de se fazer o que é proibido. Nuns casos, pede-se a serviços amigos que façam por nós aquilo que nos está vedado; noutros, utiliza-se contractors; noutros ainda, passa-se pura e simplesmente por cima da lei.

É que no mundo da espionagem, o que realmente conta raramente vai para o papel. Sem papel, não há provas – a não ser que alguém decida falar. Nos raros casos em que isso acontece e “cabeças rolam”, há sempre a solução de mudar o nome às coisas.

Foi o que aconteceu nos anos 70 do século XX, quando o Comité Church do Congresso norte-americano deslindou muitos dos programas ilegais que a CIA, a NSA e o FBI levavam a cabo há décadas; foi o que aconteceu em 1929, quando o secretário da Guerra dos EUA, Henry Stimson, extinguiu o serviço de intercepção e decifragem das comunicações estrangeiras do Departamento de Estado. Stimson terá dito que “cavalheiros não lêem o correio de outros cavalheiros”, mas o que é facto é que, assim que a “Black Chamber” fechou, os seus arquivos foram imediatamente transferidos para uma nova organização que fazia exatamente a mesma coisa.

É assim há muitas décadas, nos EUA e noutras partes do mundo. Abusos dão lugar a purgas; muda-se o nome às instituições e às operações que elas desenvolvem, e tudo volta à “normalidade”.

No caso norte-americano, a “normalidade” é cada vez mais difícil de manter devido ao tamanho gigantesco do sistema de espionagem. Há pelo menos 16 agências diferentes que têm como missão recolher e tratar informação secreta. O número de pessoas com autorização para aceder a informação de nível top secret chega aos quatro milhões!

É por isto que a espionagem norte-americana é, simultaneamente, a maior do mundo e a menos secreta. O sistema é tão grande e grotesco que torna perfeitamente possível que um analista de baixo nível, que nem sequer é funcionário público, como Edward Snowden, consiga ter acesso a informação vital que não chega ao Presidente dos Estados Unidos.

Com tanta gente a espiar, é fatal que apareçam mais Snowdens e Mannings. Todavia, o gigantismo do sistema, que o torna vulnerável a estas fugas de informação, também o protege. Hoje, ele tem vida própria e multiplica-se para além dos controlos políticos e legais. Os presidentes passam, mas as agências, operações e espiões ficam – nalguns casos, durante décadas.

Quando Harry Truman se tornou presidente, em 1945, pôs em cima da sua secretária uma placa onde estava escrito: “The buck stops here” (“A responsabilidade é minha”). Hoje, Barack Obama não poderia fazer o mesmo de consciência tranquila, porque não controla inteiramente a máquina do seu governo.

Na verdade, nem sequer sabemos se ele sabe o que devia saber.

 

Amigos de Freud

Este artigo mostra como Sigmund Freud e o movimento psicanalítico não estão tão distantes do esforço soviético para obter a bomba atómica como se poderia pensar à primeira vista.

OK, a ligação é ténue, mas a história é fascinante – embora trabalhosa de seguir.

Se para mais não der, pelo menos mostra-nos como a história da Europa Central e de Leste se tornou extraordinariamente complicada no período entre guerras e na meia dúzia de anos após a 2.ª Guerra Mundial, alturas em que países e impérios se fizeram e desfizeram com rapidez estonteante, deixando milhões de pessoas sem país e/ou nacionalidade.

Quem se lembra dos passaportes Nansen?

Passaporte Nansen
Fonte: Wikimedia

Espionagem electrónica para todos

Isto está mesmo a ficar estranho.

No passado, a coisa funcionava de maneira relativamente simples e clara: quando um governo queria espiar alguém, entregava a tarefa ao seu serviço secreto, que usava os seus agentes e alguns meios técnicos próprios nessa tarefa. Coisas simples, como máquinas fotográficas, equipamentos de escuta telefónica e aparelhos de localização. Havia um ou outro recurso mais modernaço e ousado, mas, no geral, os equipamentos tipo 007 ficavam mesmo pelo reinos da literatura e do cinema.

Com a popularização dos computadores e da Internet, a situação mudou muito. Primeiro, os governos (e não só) passaram a ter de vigiar muito mais do que conversas pessoais, telefones ou gavetas. A informática dá uma enorme flexibilidade às comunicações pessoais, bem como à produção e disseminação de conhecimento, informação e propaganda. Assim, é muito mais difícil para os estados saberem o que os seus cidadãos andam a fazer. No caso dos regimes ditatoriais, este problema agudiza-se porque, ao contrário do que acontecia no passado, as tecnologias mais avançadas já não são uma reserva das instituições estatais ou das grandes empresas.

Bem pelo contrário: especialmente nos países mais pequenos e menos desenvolvidos, verifica-se que a sociedade em geral está bem mais actualizada e activa no uso e desenvolvimento das tecnologias informáticas do que os estados.  Mesmo em países como os Estados Unidos e a China, que empenham enormes recursos nas áreas da segurança electrónica e da guerra de informação, muitos hackers e crackers mostram-se bem mais sofisticados e eficazes do que os serviços estatais que os tentam travar.

Assim sendo, em muitos casos aplica-se a velha máxima: se não podes vencê-los, junta-te a eles – ou, pelo menos, aproveita-te deles. A Síria parece ter feito precisamente isso, como é explicado neste artigo da Wired. Enquanto os estados mais ricos do Ocidente entregam fatias cada vez maiores da sua defesa a empresas privadas, os sírios , que não são tão abonados, simplesmente usaram uma aplicação gratuita, concebida por um programador francês, para espiar os computadores dos opositores ao regime de Assad.

Ferramentas como esta são abundantes, fáceis de encontrar e fáceis de usar. Por isso, não admira que os estados estejam a perder o monopólio da espionagem, e sejam cada vez mais espiados por cidadãos, organizações e empresas.

Na verdade, estamos a entrar numa era de democratização da espionagem electrónica. Quase todos podem espiar quase todos. Esperemos que não o queiram.