Category Archives: Armas ligeiras

O futuro da guerra II

Morte por controlo remoto

O Michael Yon divulgou há dias uma inovação tecnológica digna de registo: uma espingarda de precisão dotada de wifi, o que, em teoria, permite que seja controlada a longas distâncias. Como o Michael diz, pode estar perto o dia em que o gatilho já não é premido pelo homem que segura a arma, mas pelo general (ou até o Presidente) que controla a operação, muito embora não me pareça que isso seja o mais provável.

Equipamentos como este vêm reforçar a tendência dos últimos anos para a remotização  e despersonalização da guerra e do acto de matar, o que tem a consequência perniciosa de desresponsabilizar quem executa esses actos e toma essas decisões.

Como diz o ditado, “Longe da vista, longe do coração”. Matar torna-se francamente mais fácil quando é feito à distância, quando não se tem de olhar para o que fica depois de se premir o gatilho ou largar a bomba. Além disso, como o atacado não pode atingir directamente e imediatamente o atacante, este tende a sentir-se invulnerável e a tomar riscos e decisões que, de outro modo, não tomaria.

A proliferação das aeronaves não tripuladas (UAV), cujos pilotos estão muitas vezes do outro lado do mundo, e de armas como a TrackingPoint realiza o sonho envergonhado das democracias ocidentais que já não têm estômago para a guerra, mas ainda não conseguem viver sem ela.

O risco para quem ataca é mínimo, as consciências mais sensíveis são poupadas e o trabalho sujo continua a ser feito.

 

Substituição das G3 adiada… mais uma vez

 

Espingarda automática G3a3
Foto: Wikimedia

Se não pode reequipar as Forças Armadas por falta de dinheiro, este Governo pelo menos não deixa dúvidas no ar. Depois do cancelamento da encomenda dos helicópteros NH90, de que já falámos aqui, agora foi a vez do concurso para a substituição das armas ligeiras ser anulado. Estamos a falar das espingardas automáticas G3, das pistolas Walther P38 e das metralhadoras ligeiras HK21 e M60. Segundo o jornal “Público”, o programa envolvia uma despesa de 80 milhões de euros.

Este processo já se arrastava há bem mais de uma década e padeceu do mal crónico que tem afligido o reequipamento das Forças Armadas: os ramos identificam as necessidades; os Governos validam-nas a autorizam a sua satisfação via Lei de Programação Militar; as verbas atribuídas para essa satisfação são cativadas ad aeternum e nada se compra. A lei diz que Portugal vai adquirir os meios x, y e z, mas o dinheiro não aparece. A ficção é mantida durante tanto tempo quanto o pudor permite, ou até que uma qualquer urgência obrigue a uma tomada de atitude: cancelamento puro simples neste caso; compras e empréstimos apressados noutros.

O problema, mais uma vez, está na incapacidade de sucessivos governos de assumirem prioridades de forma clara. Promete-se às Forças Armadas aquilo que se não pode cumprir e os generais fingem que acreditam. Resultado: a compra de novos equipamentos não é feita de forma escalonada e planeada, e a obsolescência dos que existem dá-se num espaço muito concentrado de tempo, o que torna ainda mais difícil a sua substituição. Portugal ainda anda a ponderar, e a adiar, a compra de armas pessoais de calibre 5,56 mm, quando quase todos os países da NATO já fizeram essa transição há décadas. Ao mesmo tempo, tem que substituir mais de metade da sua esquadra naval e comprar aeronaves que substituam os aviões de transporte C-130 e os helicópteros Alouette III. E  já para não falar de meios que nunca tivemos, mas que são considerados muito importantes, como o Navio Polivalente Logístico.

Do mal o menos: no caso das armas ligeiras, o cancelamento tem a vantagem de permitir que se faça uma reavaliação da bondade da adopção do calibre 5,56. As armas desse tipo possibilitam um volume de fogo muito superior ao das que têm o calibre 7,62, como é o caso da G3 das forças armadas portuguesas, mas os combates no Iraque e no Afeganistão vieram mostrar que as munições 5,56 não têm um efeito suficientemente incapacitante a distâncias mais elevadas. Em linguagem mais crua e dura: as balas deste tipo tendem a atravessar o corpo humano sem se fragmentarem, o que permite à pessoa atingida continuar a combater.

É por isto que há um debate cada vez mais intenso sobre as vantagens e desvantagens dos dois calibres, com muitos especialistas a defenderem um regresso ao 7,62 e outros a defenderem a adopção de um calibre intermédio, como o 6,5 mm. Enquanto não estiver absolutamente claro que o padrão da NATO vai continuar a ser a o 5,56, o melhor é esperar. É verdade que as G3 portuguesas têm todas 30 ou 40 anos, na melhor das hipóteses, e que não permitem a instalação das miras e lanternas que caracterizam uma arma moderna, mas também é certo que continuam a ser armas muito fiáveis e eficazes. Além disso, existem em abundância nos depósitos das Forças Armadas.

Se ainda houvesse fábricas de armas ligeiras militares em Portugal, também se podia optar por algo semelhante ao que a Noruega fez: modernizar as velhas G3, transformando-as em armas quase irreconhecíveis. Como não há, resta esperar.

Soldado norueguês empunhando AG3
Foto: Exército Americano