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Desatino europeu

As minhas cautelas sobre os resultados da cimeira de Bruxelas parecem mesmo ter razão de ser. Os parceiros da Sr.ª Merkel na coligação que governa a Alemanha estão a ameaçá-la com a ruptura caso haja mais cedências aos aflitos da Europa do Sul. A Finlândia, por seu lado, também  já deu o seu recado (e a Holanda parece ir pelo mesmo caminho): está contra a utilização dos fundos de resgate da Zona Euro na compra de dívida pública dos estados em dificuldades, porque “a experiência mostra que estas compras não são efectivas e porque o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e o Mecanismo Europeu de Estabilização (MEE) têm recursos limitados”. Ou seja: parem lá de gastar o nosso dinheiro nisso, porque não é suficiente e não resolve problema nenhum. E o pior é que os finlandeses são capazes de ter razão.

Aumenta assim, em muitos sectores, a sensação de que o circo já está a arder. O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, que costuma primar pelo equilíbrio e até uma certa fleuma, não tem dúvidas em afirmar que “a periferia da Europa está em chamas” e que os Balcãs entrarão em guerra civil caso a Europa não atine. Este tema, só por si, justifica um longo e detalhado post, que escreverei mais tarde, mas não quero deixar de manifestar já a minha total concordância com Luís Amado. É que, enquanto temos estado todos muito ocupados e preocupados com as crises financeiras na Europa do Sul, têm-se verificado desenvolvimentos muito graves a Leste, em países como a Roménia e Bulgária. Como não fazem parte da Zona Euro, os seus problemas económicos têm sido pouco notados no resto da Europa, mas o facto é que esses estados têm sido atingidos com extrema dureza pela crise, tanto mais que nunca chegaram a desfrutar dos níveis de conforto e bem-estar que portugueses e gregos, apesar de tudo, conseguiram alcançar.

Assim, o triunfalismo das primeiras horas após a cimeira tem dado lugar a apreciações mais críticas e cépticas. O discurso de Durão Barroso no Parlamento Europeu, na terça-feira, é exemplar nesse aspecto, e dá a entender que aquilo que há muito se temia está mesmo a acontecer: a União está a desagregar-se e os seus líderes já nem se preocupam muito em escondê-lo.

Durão bateu forte e feio, a Norte e a Sul, e em público. Imagine-se como as coisas estarão em privado, quando as portas dos conselhos europeus se fecham…

A crise europeia

A segurança da Europa e do mundo jogaram-se ontem na cimeira europeia. Sem se resolver o problema financeiro não será possível resolver o problema económico que nos ameaça a todos: a falta de crescimento e a dependência (e subserviência) excessiva face ao crédito e à especulação; sem se resolver o problema económico, a Europa, enquanto projecto de solidariedade e cooperação, fragmentar-se-á e caminharemos rapidamente para um cenário em que vários estados (especialmente no Leste) cairão no extremismo e na desordem social e política. A partir daí, tudo é possível.

A abertura dos cofres do Fundo Europeu de Estabilização Financeira aos bancos e aos estados em dificuldades podem ser passos na direcção certa para se começar a resolver a crise- pelo menos os investidores, para já, acreditam nisso -, mas ainda é cedo para dar garantias. A Casa Branca já veio pôr água na fervura, até porque sabe bem demais o que é que a casa europeia tem gasto nos últimos três anos. Obama não está disposto a deixar que a indecisão europeia arruíne a recuperação económica norte-americana e, consequentemente, as suas possibilidades de reeleição, em Novembro. Por isso, deixou já bem claro que espera que as novas medidas sejam mais detalhadas, e que sejam apenas o princípio de algo mais ousado e eficaz.

Entretanto, o espectro grego continua a pairar sobre todos estes esforços e boas intenções. Enquanto o problema da dívida da Grécia não for resolvido de uma vez por todas, ele poderá muito bem arrastar a Europa para o abismo – talvez começando por Portugal.

Há lições da História que são muitas vezes ensinadas, mas poucas vezes aprendidas. Uma delas é que um pequeno país, ou um mesmo um pequeno banco, pode pôr o mundo de pantanas. Os austríacos que o digam.