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Como lidar com o terrorismo

Não escrevi sobre o atentado de Boston porque não senti que houvesse algo de novo para dizer no meio da cobertura exaustiva de que o ataque foi alvo. Dinâmica fraternal à parte, a acção dos irmãos Tsarnaev não parece ter nada que a destaque significativamente. O que acho que vale mesmo a pena a ler é o que Bruce Schneier tem a dizer sobre a forma como devemos encarar o terrorismo. No seu “Crypto-Gram” de ontem, ele escreve (tradução minha):

À medida que os detalhes sobre os ataques bombistas em Boston vão sendo conhecidos, o mais fácil seria ficarmos assustados. O mais fácil seria sentirmo-nos impotentes e exigir que os nossos líderes eleitos façam alguma coisa – seja o que for – para nos manter seguros.
Seria fácil, mas seria errado. Devemos estar zangados e mostrar empatia em relação às vítimas, mas sem ficarmos assustados. Ter medo seria exactamente aquilo que os perpetradores desejam e aumentaria o impacto da sua vitória, sejam quais forem os seus objectivos e seja qual for o grupo que está por detrás disto. Não precisamos de estar assustados e não estamos impotentes. Na realidade, nós é que temos todo o poder e há uma coisa que podemos fazer para tornar o terrorismo ineficaz: recusarmo-nos a ser aterrorizados.
Isso é difícil de fazer porque o terrorismo é feito precisamente para assustar pessoas, e de uma forma altamente desproporcional relativamente ao perigo real que traz. Uma enorme quantidade de pesquisas sobre o medo e o cérebro mostra-nos que exageramos ameaças que são raras, espectaculares, imediatas, fortuitas – neste caso, envolvendo uma criança inocente – sem sentido, horríveis e que fornecem imagens chocantes. O terrorismo mexe muito com todos os nossos medos e isso leva-nos a reacções exageradas.
Todavia, os nossos cérebros estão a enganar-nos. Ainda que este ataque vá ser notícia durante semanas, devemos reconhecê-lo por aquilo que é: um acontecimento raro. Essa é verdadeira definição de notícia: qualquer coisa que é invulgar – neste caso, algo que quase nunca acontece.
Lembram-se quando, depois do 11 de Setembro, se previa que veríamos ataques desse tipo de poucos em poucos meses? Isso nunca aconteceu, e não foi porque a Administração de Segurança nos Transportes confiscou facas e globos de neve nos aeroportos. Dê-se crédito ao FBI por ter desmantelado redes terroristas e por ter bloqueado o seu financiamento, mas também exagerámos a ameaça. A televisão e os filmes mostram-nos que é fácil explodir coisas, mas a verdade é que fazer terrorismo é muito mais difícil do que a maior parte das pessoas pensa. É difícil encontrar terroristas empenhados, é difícil preparar um ataque, é difícil obter os materiais e é difícil executar um plano funcional. Enquanto grupo, os terroristas são estúpidos e fazem erros estúpidos; as grandes mentes criminosas são outro mito dos filmes e da banda desenhada.
Até os terroristas do 11 de Setembro tiveram sorte. (…)
Há coisas que podemos fazer para ficarmos mais seguros, principalmente no que diz respeito à investigação, à recolha de informação e à resposta nas emergências, mas nunca estaremos 100% seguros em relação ao terrorismo. Precisamos de aceitar isso.
O sucesso deste ataque depende muito menos do que aconteceu em Boston do que das nossas reacções nas próximas semanas e meses. O terrorismo não é, em primeiro lugar, um crime contra pessoas ou propriedade; é um crime contra as nossas mentes, usando as mortes de inocentes e a destruição de propriedade como cúmplices. Quando reagimos a partir do medo, quando mudamos as nossas leis e as nossas políticas para tornar o nosso país menos aberto, os terroristas são bem-sucedidos, mesmo que os seus ataques tenham fracassado. Quando recusamos ser aterrorizados, quando somos indomitáveis face ao terror, os terroristas fracassam, ainda que os seus ataques tenha sucesso.
Não glorifiquemos os terroristas e as suas acções ao chamar a isto uma parte da “guerra ao terror”. As guerras envolvem dois lados legítimos; aqui, só há um lado legítimo. Quem está do outro são criminosos. Eles devem ser encontrados, detidos e castigados, mas entretanto devemos estar vigilantes para que não enfraqueçamos as próprias liberdades que tornam este país grande, só porque estamos assustados.
Sejam empáticos, mas recusem-se a ser aterrorizados. Em vez disso, sejam indómitos e apoiem líderes que também o sejam. É assim que se derrotam terroristas.

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Digno do “Dr. Estranhoamor” II

Nem inventando se arranjam histórias assim.

O excelente Crypto-Gram de Bruce Schneier dá-nos dois exemplos assustadores de como funcionava (ou ainda funciona, num dos casos) a activação das armas nucleares soviéticas/russas e britânicas.

Os russos, fazendo jus ao estereótipo, primam pela simplicidade e robustez dos seus métodos. Se o cofre onde estão guardados os códigos de lançamento dos mísseis nucleares não abre, então há que ter uma marreta mesmo ali ao lado, não vá a fatídica ordem chegar.

Bomba nuclear britânica
Foto: Marshall Astor

Os britânicos, por seu lado, também se mostraram fiéis ao estereótipo: cavalheiros, especialmente os da Royal Navy, nunca lançariam uma bomba atómica sem uma ordem superior adequada. Pensar o contrário seria “odioso” e, por isso, durante décadas, as armas atómicas da Grã-Bretanha podiam ser activadas sem recurso a qualquer código de segurança (vídeo a não perder).

No caso das bombas de gravidade da  Royal Air Force (RAF), havia ainda um requinte adicional: o passo final incluía a colocação de um cadeado de bicicleta (aloquete para os nortenhos).

Sem código.

Porque cavalheiros não matam milhões de pessoas sem autorização superior.

P.S. Nem de propósito: hoje é o 67.º aniversário do primeiro teste de uma bomba nuclear. Designado como Trinity, aconteceu em Alamogordo, no estado norte-americano do Novo México, em 16 de Julho de 1945.

Assim surgiu o “brinquedo mortífero de Oppenheimer”.