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The West and the rest

Niall Ferguson é um historiador muito polémico. Há quem ame, há quem odeie, mas certamente ninguém o pode acusar de ser aborrecido.

Bom exemplo disso mesmo é esta entrevista ao “Expresso”, em que decreta a morte do Ocidente.

A ler. Especialmente se discordar.

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Maggie e Ron

Durante pelo menos vinte anos, a versão oficial sobre o posicionamento dos Estados Unidos face à Guerra das Falklands (ou Malvinas, se preferir) foi que teria havido neutralidade.
Os norte-americanos encaravam a disputa em torno das ilhas como um resquício anacrónico do desmantelamento do Império Britânico e não estavam dispostos a alienar os militares da Junta argentina, cuja colaboração tanto jeito dava num contexto de Guerra Fria, só para preservar o amor-próprio britânico.
Isto era o que se dizia, mas, como em tantas outras ocasiões, a verdade era outra. O testemunho de John Lehman, secretário da Marinha dos EUA em 1982, mostra-nos até que ponto a realidade divergia da aparência. Num artigo publicado no site do United States Naval Institute, citado pelo The Aviationist, Lehman conta que a Administração Reagan tinha decidido emprestar o porta-helicópteros Iwo Jima à Grã-Bretanha caso esta perdesse um dos seus dois porta-aviões nos combates.
Tudo isto terá sido acertado informalmente com o presidente Ronald Reagan, que terá mesmo recomendado ao secretário da Defesa, Casper Weinberger, “que desse a Maggie (Thatcher) tudo o que ela necessitasse para resolver o problema”.
Este episódio demonstra bem a profundidade da ligação estratégica entre Estados Unidos e Grã-Bretanha, que, no essencial, se mantém 30 anos depois.

Não tão bom quanto parecia

F-22 Raptor
Foto: Rob Schenk

Os rumores de que o F-22 Raptor está longe de ser invencível em combate aéreo foram agora confirmados pela Combat Aircraft Monthly, via Danger Room.

Um dos pilotos alemães que participou no Exercício Red Flag, em Junho, no Alasca, explicou à revista como os Eurofighters da Luftwaffe conseguiram “abater” os F-22 várias vezes. O segredo, parece, é chegar o mais próximo possível do Raptor e obrigá-lo a um combate de curta distância, onde o peso maior do F-22 o coloca em desvantagem face a opositores mais ágeis.

Em distâncias mais longas, a velocidade do Raptor, associada ao seu radar e aos mísseis AMRAAM dão-lhe vantagem clara – já para não falar da sua capacidade stealth.

O problema, como diz o Danger Room, é que a grande maioria dos combates aéreos se dá a curtas distâncias.

O F-22 Raptor é o caça mais sofisticado e caro de sempre (cada unidade custou mais de 120 milhões de euros), e deveria assegurar aos Estados Unidos a superioridade incontestada nos ares nas próximas duas ou três décadas. Pelo menos foi assim que foi “vendido” pela Força Aérea ao Congresso.

A sua “derrota” face a aviões sem capacidade de evasão aos radares, como são os Typhoon, deverá levar a uma reanálise profunda da sua doutrina de utilização.

Poder submarino

Aqui, em Portugal, os submarinos são quase sempre motivo de chacota e/ou protestos mais ou menos indignados devido ao seu elevado custo e aos negócios pouco claros que envolveram as aquisições mais recentes.

Para muitos comentadores, os submarinos são um luxo desnecessário, e mais valia que o país nunca os tivesse comprado ou que vendesse os que tem.

No entanto, qualquer estado com um espaço marítimo significativo a seu cargo, como é o nosso, não pode deixar de ter submarinos. Quase nenhum país nessas circunstâncias os dispensa (e são mais de 40), e Portugal já os tem há quase 100 anos.

Sim, 100 anos.

Com crises e sem elas, com as contas mais folgadas ou à beira da bancarrota, dezenas de governos consideraram sempre que Portugal precisava de submarinos. Porque será?

Uma das respostas pode ser documentada com a foto seguinte.

O antigo navio da marinha norte-americana Kilauea afunda-se depois de ter sido atingido por um torpedo disparado pelo submarino australiano Farncomb.
Foto: Australian Defence

Isto é o que um submarino pode fazer. Com um único torpedo.

Os U209 PN da Marinha Portuguesa podem transportar doze.

Para uma visão ainda mais esclarecedora, temos este exemplo.

É para isto que servem as armas de guerra: destruição em grande escala. Se as coisas correrem como quase toda a gente deseja, essa destruição não passa dos exercícios com velhos navios vazios. Todavia, a ameaça permanece. E onde há ameaça há dissuasão.

Como arma dissuasora, não há muitas que sejam mais convincentes do que um submarino. E mais baratas, quando se trata de um modelo com propulsão a diesel e eléctrica.

Quando submerso, ele é invisível e de detecção muito difícil, especialmente se tiver AIP. O seu poder de destruição é enorme, especialmente quando é dotado de torpedos modernos, como o Mk 48 e o Blackshark, e de mísseis de superfície, como o Harpoon.

Não foi por mera simpatia que a Marinha dos EUA convidou a Armada a enviar um dos novos submarinos portugueses ao exercício naval realizado a propósito do bicentenário da Guerra de 1812, entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Na realidade, os norte-americanos queriam conhecer de perto aquele que é considerado por muitos especialistas o melhor submarino não-nuclear do mundo, o U209 PN (que, na realidade, é um U214).

É que exercícios anteriores já lhes demonstraram repetidamente que um único submarino convencional bem tripulado pode pôr no fundo um porta-aviões, a arma suprema (por enquanto) do poder naval norte-americano.

Nos últimos anos tem-se falado muito da importância que o mar tem para Portugal. De repente, descobriu-se que temos uma Zona Económica Exclusiva (ZEE) enorme, e que poderá ser ainda maior com a extensão da plataforma continental. Fala-se muito das grandes riquezas que poderemos tirar desse mar e do fundo oceânico, mas do que quase ninguém fala é da necessidade de os proteger e vigiar. Para isso, são necessários aviões, navios de superfície e submarinos.

Sem esses meios, toda a conversa de virar Portugal para o mar e criar uma nova economia com base em recursos marinhos não passa disso mesmo – conversa.

Cisão transatlântica

As relações transatlânticas já viram melhores dias, mas também já viram piores (durante a presidência de George W. Bush). No longo prazo, as perspectivas não são famosas, à medida que o foco estratégico dos Estados Unidos se vira para Oriente.

Agora, um discurso do secretário da Defesa britânico, esmiuçado pela AOL Defense, põe as coisas em pratos mais limpos do que é costume. Basicamente, Phillip Hammond diz aos outros membros europeus da NATO para se deixarem de queixinhas e começarem a fazer o que é necessário para garantir a segurança da Europa.

Hammond assume mesmo que vai haver uma repartição de tarefas, e que isso é bom: os EUA vão lidar com a China e o Pacífico; a parte europeia da NATO vai ter de cuidar do seu quintal com pouca ou nenhuma ajuda do outro lado do Atlântico.

O problema é que os europeus não estão disponíveis para gastar mais com a Defesa, bem pelo contrário. A própria Grã-Bretanha, que tanto bate no peito pelo mão do seu secretário, está a realizar um conjunto de cortes brutais nesta área. 

Assim sendo, não se vê como é que vai ser feita a quadratura do círculo. As necessidades de segurança vão aumentar nos próximos anos, como é fácil de perceber, e os meios para as suprir são cada vez menores, porque os políticos tentam desesperadamente tapar os buracos desse enorme náufrago chamado “Modelo Social Europeu”.

Algo me diz que vamos ficar com pouco das duas coisas – pouca segurança e pouco Modelo Social Europeu.

Um massacre mais…

Sobre o que se passou na última noite em Aurora, no Colorado, nada mais precisa de ser dito do que isto.

Atentado na Bulgária II

Há mais alguns detalhes sobre o atentado de ontem contra um grupo de turistas israelitas na Bulgária.

O bombista suicida tinha em sua posse uma carta de condução falsa do estado norte-americano do Michigan. Isto é significativo, na medida em que uma das comunidades árabes mais importantes dos Estados Unidos está situada em Dearborn, uma cidade daquele estado.

Os árabes de Dearborn já foram acusados várias vezes de terem ligações terroristas, mas nada de muito substancial foi comprovado. A carta de condução falsa pode ser uma pista legítima, ou apenas uma tentativa de desviar as atenções dos verdadeiros executores do atentado.

Antigamente é que era

Nos últimos anos tem-se discutido com regularidade nos Estados Unidos a possibilidade de reinstituir o serviço militar obrigatório (SMO). Os americanos, sempre mais atentos do que os europeus a essas questões, têm bem presente que umas forças armadas 100% profissionais são sempre um perigo potencial para qualquer democracia, e que o SMO é um meio muito eficaz de fortalecimento da coesão nacional.

William Pfaff juntou-se agora a este debate com um artigo no blogue da New York Review of Books, intitulado “Quando o Exército era Democrático”. Para ele, as Forças Armadas norte-americanas foram democráticas entre 1940 e 1971, o período em que vigorou o draft (SMO), porque foi nessa altura que toda a nação teve de dar os seus filhos às fileiras, independentemente do estatuto económico e social dos pais, ou até da cor dos mancebos.

É claro que esta visão peca por algum exagero, porque, como os portugueses sabem muito bem, onde há SMO, há sempre muita gente que tenta, e consegue, escapar-lhe – e normalmente são os mais ricos e/ou bem relacionados. Os Estados Unidos não são excepção a essa realidade; o que dá a impressão contrária, por vezes, é o caso atípico da 2.ª Guerra Mundial, em que houve uma mobilização geral dos recursos humanos e materiais do país para um conflito sobre o qual havia grande consenso nacional.

Quando a Guerra da Coreia chega, o draft é muito mais impopular (um livro como as “Pontes de Toko-ri”, de James Michener, mostra bem isso), e quando se chega ao Vietname, é-o muito mais ainda. William Pfaff diz, com razão, que “foi o Vietname que destruiu o serviço militar nacional”. A guerra era impopular e, no final da participação americana, o estado de prontidão e disciplina das forças armadas norte-americanas era terrível. Por isso, a hierarquia militar exigiu, e conseguiu, a profissionalização total dos efectivos.

A verdade é que, historicamente, os norte-americanos têm sido avessos à existência de forças armadas baseadas no modelo de obrigatoriedade, e mesmo quando o tiveram, foi quase sempre parcial: apenas uma parte dos mancebos em condições de cumprirem serviço o fazia efectivamente, sendo que a selecção era feita por sorteio e pelas várias dispensas que a lei permitia e Pfaff menciona. Aliás, na primeira vez que o Governo federal introduziu o sistema, durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), a reacção foi extremamente violenta: Nova Iorque, por exemplo, enfrentou os piores motins da sua história por causa do draft de 1863 (episódio popularizado pelo filme “Os Gangues de Nova Iorque”).

William Paff pode olhar para o “Exército Democrático” com algum saudosismo irrealista, mas acerta em cheio no que diz respeito à sua comparação com o actual exército profissional. Por isso, traduzo agora com a devida vénia o último parágrafo do seu artigo:

Até ao Vietname, o Exército dos Estados Unidos tinha sido um exército do povo. Quando o país pensava que tinha de travar uma guerra, recrutava um exército de cidadãos. Os cidadãos defendiam o país e as suas crenças, muitas vezes fazendo sacrifícios familiares e económicos para suportarem o esforço de guerra. Eles tornavam as guerras da América possíveis. Também as evitavam. O Exército era democrático e o Governo era compelido a reconhecer e a respeitar a vontade popular, e a vontade dos seus soldados civis e dos oficiais milicianos que o constituíam. O que foi fundamentalmente destruído no Vietname foi o Exército Democrático. O exército profissional de voluntários torna possíveis as guerras não democráticas, ideológicas na sua natureza e inspiração, e sem fim real aparente.