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Quem te avisa…

Sempre achei muita graça às autofustigações períódicas que ocorrem em Portugal relativamente à nossa relação com Espanha. Ainda não há muito tempo, havia quem garantisse que os nossos vizinhos se preparavam para nos engolir de uma assentada graças ao seu poder económico – onde é que ele está agora? -, enquanto outros proclamavam que isso não só estava a acontecer, como até era desejável. Houve mesmo ilustres publicações da nossa praça a fazer sondagens sobre uma hipotética união ibérica.

Qualquer análise geopolítica básica e um conhecimento superficial da realidade espanhola (já para não falar da portuguesa) deviam ser suficientes para nos informar do disparate de tais ideias, mas o que é facto é que elas persistem, nem que seja nas páginas dos jornais que têm falta de notícias.
A verdade é que a Espanha, tal como existe hoje, não tem a sua sobrevivência assegurada. Neste contexto, falar de uma absorção de Portugal seria o mesmo que falar de um homem que, apesar de estar a morrer de indigestão, come um banquete de doze pratos.

Vem isto a propósito das importantes declarações do general Loureiro dos Santos numa conferência sobre o novo Conceito Estratégico de Defesa Nacional (CEDN). Num país em que só os militares e alguns académicos se dedicam a pensar no nosso futuro em termos estratégicos, Loureiro dos Santos, graças ao seu acesso à comunicação social, é dos poucos que vai avisando a opinião pública para a necessidade de olharmos para as grandes questões nacionais e internacionais numa perspectiva estrutural e de longo prazo.

O que ele nos diz agora é de uma enorme urgência e importância: a União Europeia e o euro têm um futuro muito incerto e podem mesmo desaparecer; Portugal e a Grécia podem ser forçados a sair da moeda única; a Espanha pode desagregar-se.
Como é óbvio, qualquer um destes cenários teria, no mínimo, consequências muito graves para Portugal. Loureiro dos Santos diz que eles devem estar previstos numa parte secreta do CEDN, o que, digo eu, seria essencial para tornar o conceito numa ferramenta efectiva de planeamento político e militar. O que tem acontecido até agora é que o CEDN, pela sua natureza inteiramente pública, tem acabado por ser, nas suas várias encarnações, uma colecção de lugares-comuns que pouco acrescentam à concretização das políticas nacionais. A parte mais sensível e concreta – e por isso classificada – do pensamento estratégico nacional tem sido remetida para o Conceito Estratégico Militar (CEM). Ora, o CEM limita-se a dar orientações às Forças Armadas e, por isso, não pode substituir o CEDN na tarefa de estabelecer as grandes linhas orientadoras da estratégia do país. Sim, porque ao contrário do que muitos ainda pensam, a Defesa vai muito além das questões militares – especialmente agora.

A Defesa passa por definirmos objectivos nas áreas económica, social, científica e cultural, entre outras – e, já agora, tentar concretizá-los. É por isso que Loureiro dos Santos salienta a importância da plataforma continental para o futuro do país, enquanto única via de expansão territorial que nos resta. Assegurar a sua posse efectiva tem de ser uma prioridade, que passa pelo aspecto diplomático (evitando que a União Europeia reclame para si esse espaço), e também pelo aspecto militar, porque é preciso vigiá-lo e controlá-lo. Pena que a Marinha tenha poucos navios capazes de fazer esse trabalho, e que a maioria dos que existem tenham mais de 40 anos.

Estrategicamente falando, já não nos podemos dar ao luxo de colocar todos os ovos no mesmo cesto, como fizemos desde que entrámos na União Europeia. Ao longo da sua história, Portugal tem assegurado a sua sobrevivência graças a alianças judiciosas na Europa e fora dela, mas também manteve um certo grau de autonomia estratégica graças ao seu império. Com o 25 de Abril e a independência das colónias, tornou-se claro que teríamos de nos virar para a então Comunidade Económica Europeia. Fizemos isso convencidos de que os interesses europeus coincidiriam quase sempre com os nossos, e por isso ligámo-nos totalmente ao destino europeu, conservando pouca ou nenhuma autonomia nas nossas escolhas estratégicas.

Agora que a crise económica e financeira destruiu o governo colegial da União Europeia, começamos a descobrir que o que a Europa quer (ou Berlim, para sermos mais precisos) já não é muitas vezes bom para nós. Outros países estão a fazer a mesma descoberta, e por isso é hora de prepararmos caminhos alternativos. O que temos seguido pode levar-nos ao abismo.

Ministro confirma negociações para venda de F-16

O ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, confirmou ontem nos Açores aquilo que já tinha aqui noticiado várias vezes: Portugal está a negociar com a Roménia e a Bulgária a venda de caças F-16 da Força Aérea.

Aguiar-Branco diz que o número de aviões a vender pode ir de nove a doze. Curiosamente, o governo búlgaro oficializou recentemente a decisão de comprar oito caças, com a escolha final a ser feita até 1 de Março. Não obstante várias fontes darem como certo que os F-16 portugueses serão os escolhidos, com o negócio a chegar aos 360 milhões de euros, a verdade é que parece haver divisões no governo búlgaro relativamente a esta matéria.

Outra informação interessante dada pelo ministro da Defesa é que esta venda, a concretizar-se, pode “facilitar e criar condições para que o reequipamento da própria Força Aérea seja mais forte do que é neste momento”. Deduz-se daqui que pelo menos parte da receita da venda dos caças poderá ser aplicada na compra de novos equipamentos, e aqui há duas prioridades claras, apontadas recentemente pelo chefe do Estado-Maior da Força Aérea: a substiuição dos aviões de treino Alpha Jet e dos helicópteros Alouette III, que não podem voar para além de 2018.

Mesmo que o negócio avance nos moldes noticiados, e mesmo que a Força Aérea fique com todo o dinheiro daí resultante, 360 milhões não dão para muito. Em 2009, a Itália aceitou pagar 220 milhões de euros por apenas seis aviões de treino avançado Aermacchi M-346 Master. A não ser que a Força Aérea ainda tenha esperanças de conseguir convencer os sul-coreanos a trazer os seus T-50 para Beja, o que dispensaria Portugal de comprar novas aeronaves deste tipo, não se vê maneira de conciliar a substituição simultânea dos Alpha Jet e dos Alouette.  A não ser que alguma alma caridosa ou mais imprevidente aceite pagar uma quantia inesperada pelos velhos Puma e Aviocar

Crítica romena à compra dos F-16

 

Apesar de ainda não se saber bem quem vai ficar com os F-16 portugueses excedentários, a decisão romena de tentar adquiri-los já está a gerar oposição. Um artigo de opinião publicado no jornal Adevarul
contesta o negócio com base em critérios tecnológicos: de que serve comprar aviões de combate em terceira mão quando já estamos a entrar na era dos aviões não tripulados?

 

Agora são os búlgaros

 

F-16 da Força Aérea Portuguesa
Fonte: USAF

Já aqui tinha falado do interesse da Roménia em comprar os F-16 excedentários que Portugal tem para vender. Agora parece que há mais um pretendente – a Bulgária.

De acordo com uma notícia emitida pela TVI24, que parece não estar disponível na sua página de Internet, os búlgaros até parecem estar a levar vantagem nas negociações, mas, tal como no caso romeno, há que ir com cautela. Ambos os países estão numa situação económica e financeira muito delicada, e ainda por cima têm a União Europeia a pressionar os respectivos governos para que realizem compras deste género de forma bem mais transparente – e , de preferência, beneficiando empresas europeias como a Saab e a British Aerospace, que estão desesperadas para vender o Grippen.

A confirmar-se esta notícia, o Governo português está já a precaver-se no que diz respeito à Roménia: se o negócio for fechado com este país, os aviões serão só entregues em 2016, depois de terem sido completamente pagos. O valor da venda pode ultrapassar os 450 milhões de euros, a pagar entre 2013 e 2016.

 

F-16 para a Roménia?

Há anos que Portugal tem dez caças F-16 para venda, dado que não tem orçamento, nem pilotos, para manter os mais de 40 aparelhos que possui a voar. Apesar de várias notícias terem indicado potenciais interessados nos aviões (o Paquistão foi o penúltimo), nada de substancial aconteceu.
Agora, informações vindas da Roménia indicam que aquele país está disposto a negociar a compra dos F-16 portugueses. O ministro da Defesa romeno diz que os aparelhos estão em excelente estado e que a sua aquisição pode bem ser a última hipótese de a Roménia substituir atempadamente os Mig 21 que asseguram a defesa aérea do país.
Acontece que este programa de reequipamento já teve tantos avanços e recuos que se torna difícil acreditar que seja mesmo desta que a Roménia vai abrir os cordões à bolsa, ou não estivesse o país a viver um momento muito delicado em termos financeiros e políticos.
No que diz respeito a Portugal, mesmo que o negócio se concretize, é duvidoso que a intenção aparente de governos anteriores de canalizar as verbas resultantes da venda de material militar obsoleto ou desnecessário para o reequipamento das Forças Armadas se concretize – ou não estivéssemos nós em plena estação da troika, com mais cortes na Defesa a adivinharem-se.

Substituição das G3 adiada… mais uma vez

 

Espingarda automática G3a3
Foto: Wikimedia

Se não pode reequipar as Forças Armadas por falta de dinheiro, este Governo pelo menos não deixa dúvidas no ar. Depois do cancelamento da encomenda dos helicópteros NH90, de que já falámos aqui, agora foi a vez do concurso para a substituição das armas ligeiras ser anulado. Estamos a falar das espingardas automáticas G3, das pistolas Walther P38 e das metralhadoras ligeiras HK21 e M60. Segundo o jornal “Público”, o programa envolvia uma despesa de 80 milhões de euros.

Este processo já se arrastava há bem mais de uma década e padeceu do mal crónico que tem afligido o reequipamento das Forças Armadas: os ramos identificam as necessidades; os Governos validam-nas a autorizam a sua satisfação via Lei de Programação Militar; as verbas atribuídas para essa satisfação são cativadas ad aeternum e nada se compra. A lei diz que Portugal vai adquirir os meios x, y e z, mas o dinheiro não aparece. A ficção é mantida durante tanto tempo quanto o pudor permite, ou até que uma qualquer urgência obrigue a uma tomada de atitude: cancelamento puro simples neste caso; compras e empréstimos apressados noutros.

O problema, mais uma vez, está na incapacidade de sucessivos governos de assumirem prioridades de forma clara. Promete-se às Forças Armadas aquilo que se não pode cumprir e os generais fingem que acreditam. Resultado: a compra de novos equipamentos não é feita de forma escalonada e planeada, e a obsolescência dos que existem dá-se num espaço muito concentrado de tempo, o que torna ainda mais difícil a sua substituição. Portugal ainda anda a ponderar, e a adiar, a compra de armas pessoais de calibre 5,56 mm, quando quase todos os países da NATO já fizeram essa transição há décadas. Ao mesmo tempo, tem que substituir mais de metade da sua esquadra naval e comprar aeronaves que substituam os aviões de transporte C-130 e os helicópteros Alouette III. E  já para não falar de meios que nunca tivemos, mas que são considerados muito importantes, como o Navio Polivalente Logístico.

Do mal o menos: no caso das armas ligeiras, o cancelamento tem a vantagem de permitir que se faça uma reavaliação da bondade da adopção do calibre 5,56. As armas desse tipo possibilitam um volume de fogo muito superior ao das que têm o calibre 7,62, como é o caso da G3 das forças armadas portuguesas, mas os combates no Iraque e no Afeganistão vieram mostrar que as munições 5,56 não têm um efeito suficientemente incapacitante a distâncias mais elevadas. Em linguagem mais crua e dura: as balas deste tipo tendem a atravessar o corpo humano sem se fragmentarem, o que permite à pessoa atingida continuar a combater.

É por isto que há um debate cada vez mais intenso sobre as vantagens e desvantagens dos dois calibres, com muitos especialistas a defenderem um regresso ao 7,62 e outros a defenderem a adopção de um calibre intermédio, como o 6,5 mm. Enquanto não estiver absolutamente claro que o padrão da NATO vai continuar a ser a o 5,56, o melhor é esperar. É verdade que as G3 portuguesas têm todas 30 ou 40 anos, na melhor das hipóteses, e que não permitem a instalação das miras e lanternas que caracterizam uma arma moderna, mas também é certo que continuam a ser armas muito fiáveis e eficazes. Além disso, existem em abundância nos depósitos das Forças Armadas.

Se ainda houvesse fábricas de armas ligeiras militares em Portugal, também se podia optar por algo semelhante ao que a Noruega fez: modernizar as velhas G3, transformando-as em armas quase irreconhecíveis. Como não há, resta esperar.

Soldado norueguês empunhando AG3
Foto: Exército Americano

 

Nova fábrica de material aeronáutico

 

Foi assinado hoje o contrato para a criação de uma fábrica de componentes aeronáuticos em Ovar e em Gaia. O projecto resulta de uma parceria entre a Airbus Military e o Grupo Salvador Caetano e envolve um investimento de 75 milhões de euros. O ministro da Economia estima que a nova fábrica vá criar 800 empregos directos e indirectos. Este acordo resulta da renegociação das contrapartidas pela venda a Portugal de 12 aviões C-295M, acordada em 2006.

Caso este projecto vingue (e o facto de ser levado a cabo por uma empresa importante, como a Salvador Caetano, dá boas garantias disso), Portugal ficará bem mais perto de ter uma indústria aeronáutica significativa. As fábricas da EMBRAER em Évora, que deverão começar a produzir em Setembro, e a participação no programa do avião de transporte brasileiro KC-390 (também da EMBRAER), são os outros pilares desta expansão. A isto acresce o trabalho de décadas das OGMA e de outras empresas mais pequenas.

 

Poder submarino

Aqui, em Portugal, os submarinos são quase sempre motivo de chacota e/ou protestos mais ou menos indignados devido ao seu elevado custo e aos negócios pouco claros que envolveram as aquisições mais recentes.

Para muitos comentadores, os submarinos são um luxo desnecessário, e mais valia que o país nunca os tivesse comprado ou que vendesse os que tem.

No entanto, qualquer estado com um espaço marítimo significativo a seu cargo, como é o nosso, não pode deixar de ter submarinos. Quase nenhum país nessas circunstâncias os dispensa (e são mais de 40), e Portugal já os tem há quase 100 anos.

Sim, 100 anos.

Com crises e sem elas, com as contas mais folgadas ou à beira da bancarrota, dezenas de governos consideraram sempre que Portugal precisava de submarinos. Porque será?

Uma das respostas pode ser documentada com a foto seguinte.

O antigo navio da marinha norte-americana Kilauea afunda-se depois de ter sido atingido por um torpedo disparado pelo submarino australiano Farncomb.
Foto: Australian Defence

Isto é o que um submarino pode fazer. Com um único torpedo.

Os U209 PN da Marinha Portuguesa podem transportar doze.

Para uma visão ainda mais esclarecedora, temos este exemplo.

É para isto que servem as armas de guerra: destruição em grande escala. Se as coisas correrem como quase toda a gente deseja, essa destruição não passa dos exercícios com velhos navios vazios. Todavia, a ameaça permanece. E onde há ameaça há dissuasão.

Como arma dissuasora, não há muitas que sejam mais convincentes do que um submarino. E mais baratas, quando se trata de um modelo com propulsão a diesel e eléctrica.

Quando submerso, ele é invisível e de detecção muito difícil, especialmente se tiver AIP. O seu poder de destruição é enorme, especialmente quando é dotado de torpedos modernos, como o Mk 48 e o Blackshark, e de mísseis de superfície, como o Harpoon.

Não foi por mera simpatia que a Marinha dos EUA convidou a Armada a enviar um dos novos submarinos portugueses ao exercício naval realizado a propósito do bicentenário da Guerra de 1812, entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Na realidade, os norte-americanos queriam conhecer de perto aquele que é considerado por muitos especialistas o melhor submarino não-nuclear do mundo, o U209 PN (que, na realidade, é um U214).

É que exercícios anteriores já lhes demonstraram repetidamente que um único submarino convencional bem tripulado pode pôr no fundo um porta-aviões, a arma suprema (por enquanto) do poder naval norte-americano.

Nos últimos anos tem-se falado muito da importância que o mar tem para Portugal. De repente, descobriu-se que temos uma Zona Económica Exclusiva (ZEE) enorme, e que poderá ser ainda maior com a extensão da plataforma continental. Fala-se muito das grandes riquezas que poderemos tirar desse mar e do fundo oceânico, mas do que quase ninguém fala é da necessidade de os proteger e vigiar. Para isso, são necessários aviões, navios de superfície e submarinos.

Sem esses meios, toda a conversa de virar Portugal para o mar e criar uma nova economia com base em recursos marinhos não passa disso mesmo – conversa.

Incêndio na Baptista de Andrade

Corveta Baptista de Andrade (Marinha Portuguesa)
Foto: Departamento de Defesa dos EUA

A corveta Baptista de Andrade, da Marinha Portuguesa, teve um incêndio a bordo na última madrugada. O fogo deflagrou na casa das máquinas, uma zona vital do navio, mas foi controlado em meia-hora, segundo a Armada. A Baptista de Andrade pôde prosseguir pelos seus próprios meios para Sines, onde oito marinheiros foram levados para o hospital, devido a intoxicações. Todos eles tiveram alta esta manhã.

Não há nenhum dado que nos permita concluir que este acidente está relacionado com a idade provecta do navio (38 anos), até porque a Marinha tem um excelente registo de segurança, mas também não vale a pena esconder o óbvio: as corvetas das classes Baptista de Andrade e João Coutinho já não deviam estar ao serviço. Para além de serem obsoletas, exigem recursos humanos e materiais desproporcionados às missões para as quais estão destacadas (patrulha e busca e salvamento).

Nesta altura, as sete embarcações já deviam ter sido substituídas pelos famigerados navios de patrulha oceânica (NPO), mas esse programa de reequipamento está parado e não se prevê se e quando será retomado. Tema para outro post. 

A propósito do cancelamento da encomenda dos NH90

O post que publiquei no sábado passado sobre a decisão do Governo de cancelar a compra dos helicópteros NH90 deu origem a um comentário de um amigo, via Facebook, que merece uma resposta mais alargada.

Afirma o estimado comentador que “Portugal não precisa de brincar às guerras”, o que me leva a concluir que o ele não só está de acordo com este cancelamento, como com qualquer outro que venha a ocorrer relativo a uma compra avultada de material militar.

Este tipo de afirmações sobre tudo o que tenha a ver com o equipamento das Forças Armadas portuguesas é bastante frequente e reflecte a grande dificuldade que o país tem em definir o que quer que elas sejam, e o que fazem.

Segundo o último estudo de opinião sobre a matéria, os portugueses confiam nas Forças Armadas mais do que em qualquer outra instituição, confiam um pouco menos nos militares, e quanto a dinheiro para as sustentar, confessam-se bastante ignorantes sobre as suas necessidades, mas pouco dispostos a abrir os cordões à bolsa.

Nada de surpreendente, especialmente em altura de crise económica. O que já não é tão compreensível é a incapacidade dos políticos para definirem conceitos estratégicos que vão além dos lugares-comuns e planos de reequipamento realistas, que não sejam alvos de cortes e cativações constantes, o que leva a que nunca sejam cumpridos na íntegra.

Pode e deve discutir-se o mérito da aquisição dos NH90 para o Exército, assim como o de qualquer outro equipamento militar; aliás, um dos problemas em Portugal é que, tirando os especialistas e os curiosos, ninguém chega a debater estas questões, e o comum dos cidadãos nunca chega a perceber para que é que os helicópteros, os submarinos e todos esses equipamentos caríssimos servem.

Agora, não restem dúvidas: ter umas forças armadas minimamente capazes sai caro, mas muito mais caro é mantê-las num estado de semi-obsolescência. Aí, todo o gasto é desperdício.

Os portugueses não parecem estar dispostos a prescindir das suas forças armadas – pelo menos é o que dizem. Cabe aos seus representantes eleitos definirem, de uma vez por todas, aquilo que elas realisticamente podem fazer e os meios para tal, sendo certo que não se poderão utilizar por muito mais tempo aeronaves e armas com quase 50 anos.

Esperemos que a revisão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional, anunciada há pouco tempo, seja um passo nessa direcção.