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They’re back…

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De mansinho, sem que se tenha notado por aí além, os Estados Unidos estão a reforçar a sua presença militar na Europa. Mais significativamente, estão a reforçar a sua presença blindada na Europa.

Este gráfico da Statista mostra que o número de carros de combate e viaturas blindadas ainda não é nada por aí além, mas o que importa aqui referir é que, até há poucos meses, ele estava reduzido a zero, ou quase.

Com o pivot estratégico dos EUA para a Ásia, a Europa estava a tornar-se num cenário secundário para Washington – e nós, portugueses, bem o sabemos, por causa do esvaziamento da base das Lajes -, mas agora as prioridades estão a alterar-se novamente.

O que explica esta marcha-atrás?

A Rússia, claro. A invasão da Ucrânia, o envio de forças para a Síria (que é como quem diz, para o Mediterrâneo) e a posição cada vez mais agressiva que Moscovo (muitas vezes por meios encobertos, outras nem tanto assim) vai tendo relativamente aos países bálticos e aos outros estados europeus que estão na sua fronteira europeia, fez tocar as campainhas de alarme no Pentágono e na Casa Branca.

E Trump? O seu “caso” com Putin irá levá-lo a pôr fim a esta “flexão de músculos” na fronteira leste da NATO?

Duvido. Especialmente agora que se confirma que o novo presidente teve uma “mãozinha” de Moscovo para chegar à Casa Branca. Para não se expor a mais críticas, e mesmo a eventuais tentativas de impugnação, Donald Trump terá de mostrar mais distanciamento relativamente à Rússia do aquele que tem tido até agora.

A não ser que Putin ofereça algo que os EUA tenham muita dificuldade em recusar…

 

 

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Quem te avisa…

Sempre achei muita graça às autofustigações períódicas que ocorrem em Portugal relativamente à nossa relação com Espanha. Ainda não há muito tempo, havia quem garantisse que os nossos vizinhos se preparavam para nos engolir de uma assentada graças ao seu poder económico – onde é que ele está agora? -, enquanto outros proclamavam que isso não só estava a acontecer, como até era desejável. Houve mesmo ilustres publicações da nossa praça a fazer sondagens sobre uma hipotética união ibérica.

Qualquer análise geopolítica básica e um conhecimento superficial da realidade espanhola (já para não falar da portuguesa) deviam ser suficientes para nos informar do disparate de tais ideias, mas o que é facto é que elas persistem, nem que seja nas páginas dos jornais que têm falta de notícias.
A verdade é que a Espanha, tal como existe hoje, não tem a sua sobrevivência assegurada. Neste contexto, falar de uma absorção de Portugal seria o mesmo que falar de um homem que, apesar de estar a morrer de indigestão, come um banquete de doze pratos.

Vem isto a propósito das importantes declarações do general Loureiro dos Santos numa conferência sobre o novo Conceito Estratégico de Defesa Nacional (CEDN). Num país em que só os militares e alguns académicos se dedicam a pensar no nosso futuro em termos estratégicos, Loureiro dos Santos, graças ao seu acesso à comunicação social, é dos poucos que vai avisando a opinião pública para a necessidade de olharmos para as grandes questões nacionais e internacionais numa perspectiva estrutural e de longo prazo.

O que ele nos diz agora é de uma enorme urgência e importância: a União Europeia e o euro têm um futuro muito incerto e podem mesmo desaparecer; Portugal e a Grécia podem ser forçados a sair da moeda única; a Espanha pode desagregar-se.
Como é óbvio, qualquer um destes cenários teria, no mínimo, consequências muito graves para Portugal. Loureiro dos Santos diz que eles devem estar previstos numa parte secreta do CEDN, o que, digo eu, seria essencial para tornar o conceito numa ferramenta efectiva de planeamento político e militar. O que tem acontecido até agora é que o CEDN, pela sua natureza inteiramente pública, tem acabado por ser, nas suas várias encarnações, uma colecção de lugares-comuns que pouco acrescentam à concretização das políticas nacionais. A parte mais sensível e concreta – e por isso classificada – do pensamento estratégico nacional tem sido remetida para o Conceito Estratégico Militar (CEM). Ora, o CEM limita-se a dar orientações às Forças Armadas e, por isso, não pode substituir o CEDN na tarefa de estabelecer as grandes linhas orientadoras da estratégia do país. Sim, porque ao contrário do que muitos ainda pensam, a Defesa vai muito além das questões militares – especialmente agora.

A Defesa passa por definirmos objectivos nas áreas económica, social, científica e cultural, entre outras – e, já agora, tentar concretizá-los. É por isso que Loureiro dos Santos salienta a importância da plataforma continental para o futuro do país, enquanto única via de expansão territorial que nos resta. Assegurar a sua posse efectiva tem de ser uma prioridade, que passa pelo aspecto diplomático (evitando que a União Europeia reclame para si esse espaço), e também pelo aspecto militar, porque é preciso vigiá-lo e controlá-lo. Pena que a Marinha tenha poucos navios capazes de fazer esse trabalho, e que a maioria dos que existem tenham mais de 40 anos.

Estrategicamente falando, já não nos podemos dar ao luxo de colocar todos os ovos no mesmo cesto, como fizemos desde que entrámos na União Europeia. Ao longo da sua história, Portugal tem assegurado a sua sobrevivência graças a alianças judiciosas na Europa e fora dela, mas também manteve um certo grau de autonomia estratégica graças ao seu império. Com o 25 de Abril e a independência das colónias, tornou-se claro que teríamos de nos virar para a então Comunidade Económica Europeia. Fizemos isso convencidos de que os interesses europeus coincidiriam quase sempre com os nossos, e por isso ligámo-nos totalmente ao destino europeu, conservando pouca ou nenhuma autonomia nas nossas escolhas estratégicas.

Agora que a crise económica e financeira destruiu o governo colegial da União Europeia, começamos a descobrir que o que a Europa quer (ou Berlim, para sermos mais precisos) já não é muitas vezes bom para nós. Outros países estão a fazer a mesma descoberta, e por isso é hora de prepararmos caminhos alternativos. O que temos seguido pode levar-nos ao abismo.

Enquanto não olhamos…

Enquanto andamos ocupados com os nossos próprios problemas, enquanto olhamos obsessivamente para a Zona Euro, para Bruxelas, para o senhor Draghi e para a senhora Merkel, a Europa de Leste começa a arder em lume cada vez menos brando. Veja-se o que se está a passar na Bulgária e na Hungria (aqui e aqui).
Tal como aconteceu repetidamente nos últimos séculos, é nesta região que o destino da Europa se vai definir. As heranças imperiais otomanas a austro-húngaras continuam a ebulir e agora não há russos para as abafar, nem euros que cheguem para as diluir. O senhor Juncker bem avisa os incautos para terem juízo: não é por termos tido paz nas últimas sete décadas (ex-Jugoslávia à parte) que a vamos ter para sempre. A Europa pode ter uma nova guerra. E não é preciso muito para a começar.

Apagando o incêndio da Zona Euro

A decisão tomada ontem pelo Banco Central Europeu (BCE) de comprar títulos da dívida dos países que estão sob alçada da troika é um enorme passo para se apagar o fogo da desconfiança que tem devastado a Zona Euro nos últimos dois anos.
Todavia, esta medida garante apenas um suporte de vida; não resolve os problemas que nos puseram a todos nesta situação a nível europeu, nem os males mais particulares de Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha, Itália e outros países.
Agora, se os mercados se mantiverem calmos, será a altura para se começar a enfrentar o maior desafio: voltar a pôr a economia a crescer sem recurso às manigâncias da baixa finança.

(Des)União Europeia IV

AOL Defense tem uma análise geopolítica muito interessante sobre o presente e o futuro da Europa, da autoria de Harald Malmgren e Robbin Laird.

Deixo aqui um extracto do último parágrafo, traduzido por mim:

Um período importante da história europeia está a chegar ao fim. O caminho em direcção ao federalismo europeu é o desfecho lógico dos desenvolvimentos dos últimos 20 anos, mas os desafios são difíceis de continuar neste caminho.

Um desfecho mais provável é a desagregação e a reestruturação da Europa.  Sugerimos mesmo que um novo mapa europeu pode surgir, e discutimos este mapa nos termos de três dinâmicas: a formação da Euro-Alemanha, o papel incrementado dos estados nórdicos, forjado em volta do seu destino árctico, e a implosão da Grécia.

(Des)União Europeia III

“Estamos a fazer tudo o que podemos para assegurar que a Grécia fica de pé. E eles [os alemães] fazem tudo o que têm ao seu alcance para garantirem que falhemos. Não sei se o fazem conscientemente ou por serem estúpidos”.
 
Declarações do primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, numa reunião de deputados do seu partido, a Nova Democracia.

(Des)União Europeia II

A Moody’s acaba de fazer um aviso à Alemanha e aos outros países ricos do Norte da Europa: se estão a pensar em deixar a Grécia à sua sorte, pensem duas vezes.

É que vai sobrar para vocês.

E tem razão.

Grécia, raus!

Espero estar enganado, mas parece-me que a tampa do caixão da Grécia acaba de ser fechada. O ministro alemão da Economia disse ontem que o cenário da saída grega do euro “deixou de ser assustador há muito tempo”. Philipp Roesler assume que “é evidente que Atenas não tem registado progressos no cumprimento do plano de reformas acordado com a UE e o FMI”, e que “se a Grécia não cumprir as condições que negociou não poderá receber mais pagamentos”. Tudo isto é dito no mesmo dia em que a revista alemã Der Spiegel noticia que o FMI, a Alemanha e outros países da Zona Euro se recusam a dar mais um cêntimo a Atenas. Sem novo financiamento, calcula-se que a Grécia caia na bancarrota já em Setembro.

Se juntarmos a isto o aumento em flecha dos juros da dívida pública espanhola, que está a ser impulsionado pelas contas castastróficas dos governos regionais, rapidamente percebemos que a Zona Euro e a União Europeia estão a um passo do precipício. Algo de radical tem de ser feito – e já.

Cisão transatlântica

As relações transatlânticas já viram melhores dias, mas também já viram piores (durante a presidência de George W. Bush). No longo prazo, as perspectivas não são famosas, à medida que o foco estratégico dos Estados Unidos se vira para Oriente.

Agora, um discurso do secretário da Defesa britânico, esmiuçado pela AOL Defense, põe as coisas em pratos mais limpos do que é costume. Basicamente, Phillip Hammond diz aos outros membros europeus da NATO para se deixarem de queixinhas e começarem a fazer o que é necessário para garantir a segurança da Europa.

Hammond assume mesmo que vai haver uma repartição de tarefas, e que isso é bom: os EUA vão lidar com a China e o Pacífico; a parte europeia da NATO vai ter de cuidar do seu quintal com pouca ou nenhuma ajuda do outro lado do Atlântico.

O problema é que os europeus não estão disponíveis para gastar mais com a Defesa, bem pelo contrário. A própria Grã-Bretanha, que tanto bate no peito pelo mão do seu secretário, está a realizar um conjunto de cortes brutais nesta área. 

Assim sendo, não se vê como é que vai ser feita a quadratura do círculo. As necessidades de segurança vão aumentar nos próximos anos, como é fácil de perceber, e os meios para as suprir são cada vez menores, porque os políticos tentam desesperadamente tapar os buracos desse enorme náufrago chamado “Modelo Social Europeu”.

Algo me diz que vamos ficar com pouco das duas coisas – pouca segurança e pouco Modelo Social Europeu.

(Des)união europeia

aqui escrevi sobre as fracturas que estão a surgir de dia para dia na União Europeia, e sobre as ameaças directas à sua paz que estão a surgir a Leste. Subjacente a tudo isto está uma história muito longa e complicada, que evoluiu muito em função da geografia do continente. Ora, o conhecimento da História e da Geografia parece ser  uma das coisas que menos abunda entre os líderes europeus e a população em geral, com os tristes resultados que se conhecem.

Robert D. Kaplan escreveu um magnífico artigo na The National Interest de Julho que pode servir muito bem como guia para qualquer pessoa interessada perceber como é que a Europa se formou, com toda a sua enorme diversidade geográfica, económica, política e cultural, e para onde pode ir. “O Mapa Dividido da Europa” mostra isso mesmo que o título indica: que apesar do esforço enorme de unificação do continente que tem sido levado a cabo nos últimos 50 anos, a Europa continua a ser um conjunto de regiões transfronteiriças com identidades e realidades bem próprias que se impõem frequentemente às vontades dos estados e dos políticos.

Kaplan confirma o já bem conhecido deslocamento do centro de gravidade da Europa para Leste, mas também não tem dúvidas de que ela se expandirá para Sul. Para ele, a fronteira natural da Europa será o Deserto do Saara, e o Mediterrâneo voltará a servir como elo de união entre as suas duas margens, e não de separação, como tem acontecido nos últimos séculos. A Grécia, por estar no centro desse mundo por nascer, será o “termómetro” da Europa nos próximos tempos.

Não sei se concordo com tudo o que Robert D. Kaplan escreve, mas o seu interesse e brilhantismo são inegáveis. Leiam, por favor.