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E tudo o “fracking” mudou

As imagens da NASA publicadas aqui pela Quartz são a prova luminosa de uma transformação enorme que está a ocorrer na economia mundial: os Estados Unidos da América vão tornar-se muito em breve autosuficientes em termos energéticos.
Isto acontece graças ao fracking, uma técnica de extracção altamente polémica, dadas as suas potenciais consequências negativas para o ambiente, mas que permite retirar crude e gás de onde antes se pensava ser impossível. É por isso que, já em 2017, se espera que os EUA se tornem no maior produtor mundial de petróleo, ultrapassando mesmo a Arábia Saudita, um cenário que seria considerado absolutamente impossível há bem poucos anos.
Como é fácil de calcular, as consequências geoestratégicas desta mudança podem ser enormes. Um relatório recente dos serviços secretos alemães (BND) diz mesmo que os EUA vão ser os grandes vencedores da corrida global às fontes energéticas. Por causa dessa nova disponibilidade, antecipa-se já um renascimento da indústria no país, dado que passará a ter energia a custos competitivos. O relatório alemão também antecipa outra possibilidade – a de os Estados Unidos se distanciarem em relação em relação ao Médio Oriente, uma vez que já não estarão dependentes do petróleo que é ali produzido. Aí, creio que Joseph Fitsanakis, no seu comentário à notícia, tem razão: não é pelo facto de os norte-americanos necessitarem menos do petróleo do Médio Oriente que vão deixar de procurar manter a sua influência na região. Até ver, petróleo é poder, e a superpotência dominante não pode dar-se ao luxo de abdicar dele.

Maggie e Ron

Durante pelo menos vinte anos, a versão oficial sobre o posicionamento dos Estados Unidos face à Guerra das Falklands (ou Malvinas, se preferir) foi que teria havido neutralidade.
Os norte-americanos encaravam a disputa em torno das ilhas como um resquício anacrónico do desmantelamento do Império Britânico e não estavam dispostos a alienar os militares da Junta argentina, cuja colaboração tanto jeito dava num contexto de Guerra Fria, só para preservar o amor-próprio britânico.
Isto era o que se dizia, mas, como em tantas outras ocasiões, a verdade era outra. O testemunho de John Lehman, secretário da Marinha dos EUA em 1982, mostra-nos até que ponto a realidade divergia da aparência. Num artigo publicado no site do United States Naval Institute, citado pelo The Aviationist, Lehman conta que a Administração Reagan tinha decidido emprestar o porta-helicópteros Iwo Jima à Grã-Bretanha caso esta perdesse um dos seus dois porta-aviões nos combates.
Tudo isto terá sido acertado informalmente com o presidente Ronald Reagan, que terá mesmo recomendado ao secretário da Defesa, Casper Weinberger, “que desse a Maggie (Thatcher) tudo o que ela necessitasse para resolver o problema”.
Este episódio demonstra bem a profundidade da ligação estratégica entre Estados Unidos e Grã-Bretanha, que, no essencial, se mantém 30 anos depois.

Não tão bom quanto parecia

F-22 Raptor
Foto: Rob Schenk

Os rumores de que o F-22 Raptor está longe de ser invencível em combate aéreo foram agora confirmados pela Combat Aircraft Monthly, via Danger Room.

Um dos pilotos alemães que participou no Exercício Red Flag, em Junho, no Alasca, explicou à revista como os Eurofighters da Luftwaffe conseguiram “abater” os F-22 várias vezes. O segredo, parece, é chegar o mais próximo possível do Raptor e obrigá-lo a um combate de curta distância, onde o peso maior do F-22 o coloca em desvantagem face a opositores mais ágeis.

Em distâncias mais longas, a velocidade do Raptor, associada ao seu radar e aos mísseis AMRAAM dão-lhe vantagem clara – já para não falar da sua capacidade stealth.

O problema, como diz o Danger Room, é que a grande maioria dos combates aéreos se dá a curtas distâncias.

O F-22 Raptor é o caça mais sofisticado e caro de sempre (cada unidade custou mais de 120 milhões de euros), e deveria assegurar aos Estados Unidos a superioridade incontestada nos ares nas próximas duas ou três décadas. Pelo menos foi assim que foi “vendido” pela Força Aérea ao Congresso.

A sua “derrota” face a aviões sem capacidade de evasão aos radares, como são os Typhoon, deverá levar a uma reanálise profunda da sua doutrina de utilização.

Cisão transatlântica

As relações transatlânticas já viram melhores dias, mas também já viram piores (durante a presidência de George W. Bush). No longo prazo, as perspectivas não são famosas, à medida que o foco estratégico dos Estados Unidos se vira para Oriente.

Agora, um discurso do secretário da Defesa britânico, esmiuçado pela AOL Defense, põe as coisas em pratos mais limpos do que é costume. Basicamente, Phillip Hammond diz aos outros membros europeus da NATO para se deixarem de queixinhas e começarem a fazer o que é necessário para garantir a segurança da Europa.

Hammond assume mesmo que vai haver uma repartição de tarefas, e que isso é bom: os EUA vão lidar com a China e o Pacífico; a parte europeia da NATO vai ter de cuidar do seu quintal com pouca ou nenhuma ajuda do outro lado do Atlântico.

O problema é que os europeus não estão disponíveis para gastar mais com a Defesa, bem pelo contrário. A própria Grã-Bretanha, que tanto bate no peito pelo mão do seu secretário, está a realizar um conjunto de cortes brutais nesta área. 

Assim sendo, não se vê como é que vai ser feita a quadratura do círculo. As necessidades de segurança vão aumentar nos próximos anos, como é fácil de perceber, e os meios para as suprir são cada vez menores, porque os políticos tentam desesperadamente tapar os buracos desse enorme náufrago chamado “Modelo Social Europeu”.

Algo me diz que vamos ficar com pouco das duas coisas – pouca segurança e pouco Modelo Social Europeu.

Um massacre mais…

Sobre o que se passou na última noite em Aurora, no Colorado, nada mais precisa de ser dito do que isto.

Antigamente é que era

Nos últimos anos tem-se discutido com regularidade nos Estados Unidos a possibilidade de reinstituir o serviço militar obrigatório (SMO). Os americanos, sempre mais atentos do que os europeus a essas questões, têm bem presente que umas forças armadas 100% profissionais são sempre um perigo potencial para qualquer democracia, e que o SMO é um meio muito eficaz de fortalecimento da coesão nacional.

William Pfaff juntou-se agora a este debate com um artigo no blogue da New York Review of Books, intitulado “Quando o Exército era Democrático”. Para ele, as Forças Armadas norte-americanas foram democráticas entre 1940 e 1971, o período em que vigorou o draft (SMO), porque foi nessa altura que toda a nação teve de dar os seus filhos às fileiras, independentemente do estatuto económico e social dos pais, ou até da cor dos mancebos.

É claro que esta visão peca por algum exagero, porque, como os portugueses sabem muito bem, onde há SMO, há sempre muita gente que tenta, e consegue, escapar-lhe – e normalmente são os mais ricos e/ou bem relacionados. Os Estados Unidos não são excepção a essa realidade; o que dá a impressão contrária, por vezes, é o caso atípico da 2.ª Guerra Mundial, em que houve uma mobilização geral dos recursos humanos e materiais do país para um conflito sobre o qual havia grande consenso nacional.

Quando a Guerra da Coreia chega, o draft é muito mais impopular (um livro como as “Pontes de Toko-ri”, de James Michener, mostra bem isso), e quando se chega ao Vietname, é-o muito mais ainda. William Pfaff diz, com razão, que “foi o Vietname que destruiu o serviço militar nacional”. A guerra era impopular e, no final da participação americana, o estado de prontidão e disciplina das forças armadas norte-americanas era terrível. Por isso, a hierarquia militar exigiu, e conseguiu, a profissionalização total dos efectivos.

A verdade é que, historicamente, os norte-americanos têm sido avessos à existência de forças armadas baseadas no modelo de obrigatoriedade, e mesmo quando o tiveram, foi quase sempre parcial: apenas uma parte dos mancebos em condições de cumprirem serviço o fazia efectivamente, sendo que a selecção era feita por sorteio e pelas várias dispensas que a lei permitia e Pfaff menciona. Aliás, na primeira vez que o Governo federal introduziu o sistema, durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), a reacção foi extremamente violenta: Nova Iorque, por exemplo, enfrentou os piores motins da sua história por causa do draft de 1863 (episódio popularizado pelo filme “Os Gangues de Nova Iorque”).

William Paff pode olhar para o “Exército Democrático” com algum saudosismo irrealista, mas acerta em cheio no que diz respeito à sua comparação com o actual exército profissional. Por isso, traduzo agora com a devida vénia o último parágrafo do seu artigo:

Até ao Vietname, o Exército dos Estados Unidos tinha sido um exército do povo. Quando o país pensava que tinha de travar uma guerra, recrutava um exército de cidadãos. Os cidadãos defendiam o país e as suas crenças, muitas vezes fazendo sacrifícios familiares e económicos para suportarem o esforço de guerra. Eles tornavam as guerras da América possíveis. Também as evitavam. O Exército era democrático e o Governo era compelido a reconhecer e a respeitar a vontade popular, e a vontade dos seus soldados civis e dos oficiais milicianos que o constituíam. O que foi fundamentalmente destruído no Vietname foi o Exército Democrático. O exército profissional de voluntários torna possíveis as guerras não democráticas, ideológicas na sua natureza e inspiração, e sem fim real aparente.