China: uma crise que ameaça o mundo

A China enfrenta um dos maiores desafios dos últimos 40 anos – tão grande que talvez só possa ser comparado à própria abertura à economia de mercado iniciada nos anos 80. A economia chinesa está a arrefecer, mas esse nem é o principal medo. Pior, muito pior, é o que está escondido nos balanços dos bancos. Do que ali estiver, o Mundo não deixará de sofrer consequências.

Cidades inteiras construídas de raiz graças ao financiamento bancário, mas com poucos ou nenhuns habitantes. Empréstimos gigantescos concedidos a “amigos” do Partido Comunista Chinês que nunca são pagos. Crédito malparado que nunca chega a ver a luz do dia, porque os padrões de contabilidade são extremamente “criativos”.

Estes são apenas alguns exemplos do muito que se passa na China que está a deixar os responsáveis económicos e financeiros mundiais extremamente preocupados.

A razão de tudo isto explica-se facilmente: a obsessão do governo em manter altas taxas de crescimento e criação de emprego, de modo a que o país tenha estabilidade social e política e o regime comunista não seja posto em causa.

Para as autoridades de Pequim, qualquer crescimento da riqueza nacional que fique abaixo dos 7% ao ano é considerado preocupante, porque isso significa que não haverá empregos suficientes nas cidades para a grande massa de trabalhadores que, todos os anos, abandona os campos em busca de uma vida melhor.

Sem uma situação de pleno emprego, ou algo perto disso, e sem a rede de proteção social que existe nos países mais desenvolvidos, a China corre sérios riscos de entrar num período de agitação com consequências imprevisíveis.

Antes da grande crise financeira de 2008, a enorme capacidade exportadora do país garantia a infusão de capital necessária para que o motor económico da China continuasse a trabalhar em alta rotação. Com a crise, a procura externa para os produtos industriais chineses sofreu uma quebra e o governo viu-se forçado a abrir as torneiras do crédito para manter o crescimento económico nos níveis desejados.

Como o nível de endividamento público e privado nessa altura não era muito elevado, não se esperava que essa política tivesse consequências negativas. O problema foi que a crise mundial se revelou muito mais grave e prolongada do que se pensava inicialmente, o que levou a uma acumulação de dívida gigantesca: no final de 2015, correspondia a 240% do Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, quase duas vezes e meia mais do que aquilo que o país produz num ano inteiro.

Quase toda esta dívida é interna, o que facilita muito a tarefa do governo em geri-la, mas, ao mesmo tempo, cria obstáculos à sua redução devido aos interesses e poderes envolvidos. Ao longo dos anos, houve muito crédito que foi concedido em função de critérios políticos, ou até por pura corrupção. São bem conhecidos os casos de empréstimos dados por ordem expressa do Partido, que, sabia-se à partida, nunca seriam pagos.

Muitos dos casos de crédito malparado envolvem empresas públicas (devedoras) e bancos também públicos (credores), o que significa que, em grande medida, o problema se circunscreve ao próprio Estado, o que é um claro incentivo para que as dívidas sejam atiradas para “debaixo do tapete”.

Mesmo assim, tal como estão as coisas, mais tarde ou mais cedo uma de duas coisas terá de acontecer: ou os devedores começam a amortizar o que devem, ou os bancos serão obrigados a classificar esses empréstimos como incobráveis, o que lhes trará grandes prejuízos.

Este cenário é muito perigoso porque a China, sob a liderança do presidente Xi Jinping, está a encetar uma reconfiguração económica extremamente complexa que exige que o seu sistema bancário esteja em boa forma.

Ciente de que a procura externa não pode continuar a impulsionar o crescimento do país – com crise mundial ou sem ela -, o Partido Comunista decidiu que o consumo interno terá de assumir um peso muito maior na produção de riqueza.

Dado que os salários são ainda muito baixos em quase todo o país, o crédito particular tem um papel muito importante nesse processo. Ora, se a banca estiver a braços com prejuízos elevados causados pelo crédito malparado no sector empresarial, é fácil perceber que dificilmente haverá a disponibilidade necessária para emprestar dinheiro às famílias para que estas comprem casas, carros e electrodomésticos.

Assim, a curto prazo, a China poderá estar a braços com uma dupla retração: a da procura externa, através das suas exportações, e da procura interna, devida à necessidade de os bancos limparem os seus balanços e de as empresas pagarem o que devem.

Mas em que é que tudo isto afeta o resto do mundo, perguntará o comum dos mortais?

A resposta é simples: afeta em muito.

Durante mais de 2500 anos, a Grande Muralha da China protegeu o Império do Meio das ameaças externas, mas também fez o inverso. Apesar de ser a mais rica e desenvolvida civilização do planeta, o contacto da China com o resto do mundo era muito limitado – e era-o por opção dos seus governantes, que entendiam ter pouco ou nada a ganhar com essas trocas, dado o avanço de que os chineses usufruíam sobre os outros povos.

Essa política teve consequências funestas para o país, com o Ocidente a assumir a primazia mundial a partir do século XVI e a relegá-lo para uma posição de humilhante subalternidade que só terminou após a II Guerra Mundial.

Mesmo assim, os primeiros 30 anos da República Popular da China estiveram repletos de enormes fracassos, especialmente ao nível económico. Só com a subida do poder de Deng Xiaoping, em 1978, é que a China encetou o caminho da liberalização e abertura económica que lhe poderia dar o estatuto condizente com a sua posição de país mais populoso do Mundo.

Isso significou que, pela primeira vez na sua história, a China começou a integrar-se nos fluxos comerciais e financeiros mundiais. Essa integração ainda não é total, dado o peso enorme que o Estado tem na economia e os muitos limites que há à presença estrangeira no país, mas ela está a avançar a um ritmo acelerado – basta ver os vultuosos investimentos chineses em Portugal nos últimos anos.

Tudo isto quer dizer que, se a China entrar numa crise económica e financeira causada pelos seus problemas de endividamento, ninguém ficará imune. No século XXI,  já não há nenhuma Grande Muralha que proteja o resto do mundo do que se passa no país mais populoso do planeta.

 

Este artigo foi publicado com pequenas alterações no número de Abril da revista “Família Cristã”.

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