Relações EUA – Cuba: 50 anos depois, o degelo

Em dezembro de 2014, o presidente dos Estados Unidos deu um passo histórico: anunciou que o seu governo estava preparado para restabelecer relações diplomáticas com Cuba. Após mais de 50 anos de inimizade, que incluiu uma tentativa de invasão a partir de solo norte-americano e conspirações para assassinar o líder cubano, Fidel Castro, os EUA reconheciam assim que a sua política de bloqueio já não faz sentido.

O primeiro sinal público de que algo iria acontecer veio ainda em 2013. No funeral de Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e líder do movimento de luta contra a segregação racial, Barack Obama cumprimentou Raúl Castro, o presidente de Cuba, e trocou algumas palavras com ele.

O encontro teve tanto de inopinado como de surpreendente. Desde 1956 que os líderes dos dois países não se encontravam frente a frente. Hoje, sabemos que esse pequeno, mas muito significativo gesto, mais não era do que o primeiro sinal público de uma aproximação que vinha sendo preparada há bastante tempo nos bastidores.

Já em abril deste ano, deram-se mais dois passos muito significativos: os dois presidentes voltaram a encontrar-se, e desta vez não se ficaram por um cumprimento de circunstância. Houve uma reunião formal à margem da Cimeira das Américas, no Panamá, que provavelmente contribuiu para o passo seguinte, que foi dado dias depois pela administração norte-americana: a apresentação de um pedido formal ao Congresso para que Cuba seja retirada da lista dos países que apoiam o terrorismo, algo que se concretizou mo final de maio.

Barack Obama nunca escondeu que achava que a política seguida pelos Estados Unidos relativamente a Cuba desde os anos 60 do séc. xx era não só errada como contraproducente. Nada, aliás, que quase todos os presidentes norte-americanos dos últimos 40 anos não pensassem também, sendo certo que nunca sentiram que tivessem condições políticas para alterar essa política.

O problema de fundo era (e ainda é) eleitoral: os americanos de origem cubana têm um enorme peso no estado da Flórida, porque foi aí que centenas de milhares de exilados da ilha se refugiaram quando os comunistas tomaram o poder, em 1959; como a Flórida é um estado chave na decisão das eleições presidenciais norte-americanas, nenhum presidente ou candidato a tal cargo se atrevia a ir contra o credo dos exilados.

No mínimo dos mínimos, os EUA teriam de manter um bloqueio económico, político e diplomático total em relação a Cuba, e essa foi, no essencial, a política seguida desde 1962.

À medida que o novo governo de Havana se foi aproximando da União Soviética, os EUA foram endurecendo a sua atitude. Essa evolução atingiu o seu ponto culminante com a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e com a Crise dos Mísseis Cubanos, em 1962.

No primeiro caso, a CIA treinou e equipou uma força de exilados anticomunistas, que tentaram invadir a ilha a partir de território norte-americano. O golpe fracassou e a administração do presidente Kennedy sofreu um grande embaraço, que teve consequências duradouras. O governo norte-americano nunca mais apoiou iniciativas desse tipo, e só considerou seriamente um ataque de larga escala contra Cuba numa outra ocasião: quando, no ano seguinte, os soviéticos instalaram mísseis nucleares na ilha.

A partir daí, os EUA optaram por ações menos visíveis, de que se destacam diversas tentativas de assassinato de Fidel Castro. Uma investigação do Congresso dos EUA determinou que, entre 1960 e 1965, a CIA organizou pelo menos oito operações deste tipo, algumas das quais terão mesmo contado com a colaboração da Máfia norte-americana.

Nos anos 70 e 80, os governos norte-americanos parecem ter deixado a violência de lado, mas mantiveram o bloqueio económico à ilha. Na prática, isso significou que os cubanos têm tido um acesso muito limitado aos mercados económicos e financeiros mundiais, o que trouxe enormes carências à população.

Enquanto a União Soviética existiu, parte dessas dificuldades foram sendo amenizadas pelo enorme apoio dado pelo governo de Moscovo, mas depois de 1991 o regime cubano ficou por sua conta.

Durante tudo isto, o regime comunista nunca pareceu ter estado seriamente ameaçado internamente. Apesar de o governo de Fidel Castro ter cometido enormes erros económicos, que custaram muito ao povo cubano, o bloqueio norte-americano serviu como justificação para quase tudo o que corria mal na ilha.

Assim, em vez de enfraquecer o regime, o bloqueio acabou por o fortalecer.

Obama percebeu isso mesmo e decidiu arriscar uma mudança radical de rumo, mas só a sua vontade não é suficiente. Ao presidente dos Estados Unidos cabe gerir a política externa do país, mas só o Congresso pode levantar o embargo comercial. Aí, a maioria pertence à oposição republicana, e sabe-se que muitos desses congressistas e senadores estão contra o fim do bloqueio.

De qualquer modo, o processo de abertura já começou. Algumas das muitas limitações que existiam nas viagens e comunicações entre os dois países foram levantadas. Hoje, já há milhares de norte-americanos a visitar Cuba todos os meses, algo que seria impensável até ao ano passado. Muitas empresas já começaram a preparar a sua entrada naquele país, e é certo que, assim que o embargo for levantado, haverá uma autêntica invasão de empresários dos Estados Unidos e de outras partes do mundo.

A economia de Cuba sofrerá uma grande transformação, e o mesmo acontecerá fatalmente com a sua sociedade. Mais tarde ou mais cedo, a política terá de acompanhar essa mudança e, então, talvez se verifique aquilo que muitos opositores do bloqueio dizem há muito tempo: que o comunismo em Cuba desaparecerá quando os Estados Unidos deixem de travar a entrada dos seus produtos, das suas ideias e do seu modo de vida em Cuba.

Afinal, só há mesmo 140 quilómetros a separar os dois países.

O Mundo à beira da guerra

Cuba tem tido uma importância desproporcional face ao seu tamanho, população ou riqueza, em grande medida, pela sua situação geográfica (está a pouco mais de 100 quilómetros dos Estados Unidos), e isso nunca foi mais visível do que em 1962, quando a União Soviética instalou mísseis nucleares em solo cubano.

Ciente de que, se permitisse essa situação, os EUA não teriam capacidade de reagir em tempo útil a um eventual ataque atómico da URSS, o governo do presidente Kennedy lançou um ultimato ao executivo de Moscovo, liderado por Nikita Khruschev: ou os soviéticos retiravam os mísseis ou haveria guerra.

Perante a hipótese de um conflito nuclear iminente, Khruschev recuou e ordenou o regresso dos navios.

Foi assim que o mundo se salvou da aniquilação, e nunca estivemos tão perto dela como nesses dias de outubro de 1962.

Este post reproduz, com pequenas alterações, o artigo que escrevi para o número de maio da revista “Família Cristã”.

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