Mediterrâneo: o mar da morte

Nos últimos quatro anos, o mar Mediterrâneo tornou-se numa armadilha mortal para milhares de imigrantes que procuravam uma vida melhor na Europa. Os naufrágios sucedem-se com uma frequência aterradora, mas nem assim eles deixam de vir, e cada vez mais. O risco de morrer no mar é menos mau do que aquilo que deixam para trás, nas suas terras.

A situação não é nova, embora assim o pareça para muitas pessoas, algumas das quais têm obrigação de estar mais bem informadas.

Desde que a vaga das descolonizações em África nos anos 60 e 70 do século XX deu lugar a inúmeras ditaduras, perseguições e guerras, que centenas de milhares de africanos procuram, todos os anos, entrar na Europa.

Muitos conseguem-no, mas muitos mais são os que ficam pelo caminho, por um motivo ou por outro.

As vias de entrada mais tradicionais passavam pelas redes informais e familiares, em que alguém conhecido, já instalado, ajudava quem vinha, normalmente de avião e com vistos de curta duração que depois davam lugar a uma permanência ilegal. Para os mais desesperados, ou sem outros meios de viagem, havia as redes de imigração clandestina, que introduziam milhares de pessoas através dos Balcãs, uma zona da Europa onde o crime organizado tem muito poder e onde os estados tendem a ser mais fracos.

Quem se lembra agora dos casos frequentes de imigrantes que apareciam mortos dentro de contentores TIR transportados por camiões ou navios?

Estas vias de entrada continuam activas, como é natural, mas agora passam despercebidas face ao drama que se vive diariamente no mar Mediterrâneo. O caminho mais curto entre a África e a Europa passou sempre por aí, mas, no passado, era raramente usado pelos traficantes de pessoas. No seu ponto mais estreito (excluindo o estreito de Gibraltar), a separação entre os dois continentes não vai além de umas poucas centenas de quilómetros, e as condições do mar são bastante favoráveis a uma travessia em grande parte do ano.

O que impedia a utilização desta via era o facto de os estados do Norte de África serem relativamente fortes e organizados e, por isso, capazes de controlar bem as suas fronteiras marítimas.

Tudo isso mudou a partir de 2011, com a Primavera Árabe. No espaço de poucos meses, as ditaduras que controlavam há décadas o Egipto, a Líbia e a Tunísia caíram com grande estrondo. Após grandes tumultos políticos e muita violência, os egípcios voltaram a ter uma ditadura militar em tudo semelhante à que tinham antes da revolução e os tunisinos conseguiram estabelecer um regime relativamente democrático e estável, mas nada disso aconteceu no caso líbio.

Depois da deposição e do assassínio do coronel Khadafi, o homem que tinha dirigido o país com mão de ferro desde 1969, rebentou uma guerra civil cujo desfecho é muito incerto. O Ocidente apoiou militarmente as forças rebeldes, no pressuposto de que estas iriam instaurar uma democracia, mas o que aconteceu foi exatamente o oposto.

Nesta altura, a Líbia é um estado falhado onde não há qualquer controlo eficaz e centralizado das fronteiras terrestres e marítimas. Isto significa que os traficantes de pessoas podem atuar com total impunidade, trazendo milhares de pessoas através do deserto, até à costa. Aí, são embarcadas em navios de pesca ou de carga em mau estado, ou mesmo em pequenas embarcações de madeira ou de borracha.

Consoante o dinheiro disponível, o imigrante poderá viajar num bote ou num navio. Se tiver alguns milhares de euros, atravessa no Verão, quando o mar está mais calmo e os riscos são menores; se tiver apenas umas centenas, só pode viajar no Inverno, quando o naufrágio é muito mais provável.

Mas de onde vem toda essa gente?

O maior grupo vem da Síria, que está mergulhada numa guerra civil sem fim à vista e que já causou a morte a mais de cem mil pessoas. Mais de 3,5 milhões de sírios procuraram refúgio na Turquia, no Líbano, na Jordânia e noutros países. Daí, os que têm algum dinheiro, procuram, em muitos casos, chegar à orla do Mediterrâneo para atravessar para a Europa. Eles sabem que têm muito mais probabilidades de obter asilo político do que os outros imigrantes, que vêm de África.

É nesse último grupo que está a grande maioria das vítimas dos naufrágios.  Como, na maioria dos casos, não podem pagar muito, é para eles que estão reservadas as piores embarcações. Os imigrantes africanos vêm essencialmente da África Central e do Corno de África, de países como o Mali, Chade, Somália e Eritreia.

É deste último país que vem o segundo maior grupo de imigrantes. O comum dos europeus pouco ou nada sabe da Eritreia, mas este é um dos estados mais repressivos de África, senão mesmo do mundo. Os jovens de ambos os sexos têm de cumprir serviço militar, que muitas vezes se prolonga de forma indefinida num regime de semi-escravatura. Por isso, todos os anos milhares de eritreus atravessam o deserto do Saara em direção à costa líbia.

Esse é também o percurso feito por malianos, somalis, chadianos, senegaleses, costa-marfinenses, a que se juntam paquistaneses, afegãos, bangladeshis e outros imigrantes provenientes da Ásia. Todos eles fogem da guerra, da pobreza ou de ambas.

Em muitos casos, há um elemento comum: o extremismo islâmico, que causa ou agrava conflitos em sítios tão díspares como a África Central e o Sul da Ásia. São as depredações do Boko Haram no Mali, no Chade e na Nigéria que empurram muitos milhares de pessoas para fora desses países; o mesmo se passa na Síria e na Líbia, com o Estado Islâmico, e no Afeganistão e no Paquistão, com os Taliban.

Durante décadas, as ditaduras que vigoravam no Norte de África serviram de tampão para essas torrentes migratórias, pelo menos reduzindo o seu caudal. O problema é que pouco ou nada foi feito pelos países europeus para atacar as causas que levam à existência dessas torrentes. Agora que se abriu um buraco no “muro” da margem sul do Mediterrâneo – e nada garante que não surjam mais -, a Europa vê-se inundada de imigrantes.

A travessia do Mediterrâneo pode continuar a matar milhares, mas eles continuarão a vir. Disso não há dúvida.

Resta a saber o que nós, europeus, estamos dispostos a fazer por eles.

Este post reproduz o artigo que escrevi para o número de junho da revista “Família Cristã”.

One response

  1. Estratega Amador | Responder

    O que nós podemos fazer por eles é destruir o autoproclamado “Estado Islâmico”, além de destruir as redes de trafico de pessoas. Isso seria bem mais produtivo que construir muros, ou “receber” imigrantes às centenas de milhar, para os quais não há nada para dar, a não ser trabalho semi-escravo e salário de bolotas.

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