Na hora do terror: a Europa e o extremismo islâmico

Escrevo estas linhas a 7 de janeiro de 2015, poucas horas depois de dez jornalistas e dois polícias terem sido assassinados por três extremistas islâmicos em Paris.

O que motivou este crime, nas palavras de quem o cometeu, foi o desejo de vingança. Vingança pelas ofensas que os jornalistas do semanário satírico Charlie Hebdo teriam cometido contra o profeta Maomé – a publicação de caricaturas em que ele surge retratado de uma forma considerada desrespeitosa ou mesmo insultuosa.

Esse tipo de desenhos sempre foi o esteio do sucesso do Charlie Hebdo. O que os seus caricaturistas fizeram nos últimos anos com Maomé e o Islão, já tinham feito muitas outras vezes com Cristo, o Papa, a Igreja Católica e a religião em geral.

Desta vez, no entanto, tudo foi diferente.

Desde 2006 que a publicação vinha sendo alvo de ameaças de extremistas islâmicos. Foi nesse ano que o Charlie Hebdo seguiu o exemplo do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, publicando desenhos satíricos do profeta Maomé. Os responsáveis pelo jornal assumiram essa atitude como um desafio direto aos fundamentalistas que vinham, através de ameaças e atos violentos, procurando condicionar a liberdade da imprensa ocidental em abordar todos os temas relacionados com o islamismo.

Já em 2011, os escritórios do Charlie Hebdo tinham sido destruídos por uma bomba incendiária. O diretor da publicação, Charb, recebia ameaças de morte constantes e tinha proteção policial. Quando, um dia, lhe perguntaram se não tinha medo, respondeu: «Prefiro morrer de pé, do que viver de joelhos.»

E foi isso mesmo que aconteceu.

O grau de liberdade de uma sociedade mede-se sempre pelo grau de proteção de que as opiniões minoritárias usufruem, mesmo que estas sejam ofensivas para a maioria. Sem essa liberdade, não há evolução, nem progresso, porque a opinião minoritária de hoje é, muitas vezes, a verdade evidente de amanhã.

Os fundamentalistas islâmicos beneficiam deste direito fundamental nas sociedades democráticas, mas recusam terminantemente que ele seja válido para quem pensa de forma diferente da deles. A sua visão da religião e do mundo é absolutamente estática. Para eles, tudo o que o que precisam de saber pode ser retirado do seu texto sagrado, o Corão, através de uma leitura literal. O crente só tem de seguir os preceitos ali expostos, tal e qual como foram escritos há mais de 1600 anos.

Atualizar a interpretação das palavras do profeta é cair na blasfémia, que tem de ser punida da forma mais severa. As únicas exceções para esta visão estática do Corão são as que decorrem da necessidade de justificar ideias e atos extremistas, que não têm qualquer fundamento no texto sagrado. É assim que a jihad passa de uma luta interior de cada crente a uma guerra de todos os crentes contra os infiéis; e é assim que o preceito maometano que recomenda modéstia na apresentação da mulher se transforma numa imposição para que ela esteja coberta da cabeça aos pés.

É esta visão simultaneamente estrita e deturpada do islamismo que é defendida pela Al Qaeda, pelo Estado Islâmico do Iraque e da Síria e por milhares de muçulmanos que vivem em França, na Grã-Bretanha, na Alemanha e em muitos outros países europeus. Mesmo em Portugal parecem já existir alguns adeptos desta visão religiosa.

O terrorismo é a face mais visível da campanha deste movimento para se impor, mas ela assume muitas outras facetas, porventura até mais eficazes. Uma delas já mencionámos: as campanhas contra pessoas e entidades que se atrevam a veicular qualquer opinião que contrarie os princípios fundamentalistas. Mesmo quando não passam de palavras (o que acontece na esmagadora maioria dos casos), o medo que geram condiciona muitas vezes a livre discussão em torno da religião e dos muçulmanos na Europa.

Esse medo, somado aos mil cuidados com que as minorias religiosas são tratadas pelos governos no Ocidente desenvolvido, devido ao receio de que haja acusações de discriminação por parte destas, faz com que, em muitos casos, os fundamentalistas tenham uma liberdade de ação na Europa que seria impensável noutras partes do mundo, e especialmente nos países árabes e africanos de onde muitos são originários.

É por isso que na Grã-Bretanha, por exemplo, há vários imãs (líderes religiosos) que pregam abertamente o extremismo e defendem ações terroristas lançadas contra o próprio país que os acolheu.

Ou seja: não há sítio onde os fundamentalistas tenham mais liberdade para falar contra os países democráticos do que nos próprios países democráticos.

Outros dos métodos usados pelos fundamentalistas para aumentar o seu poder e influência na Europa é o controlo direto dos bairros e das localidades onde os muçulmanos se concentram. Isso é feito muitas vezes através de “patrulhas” de fundamentalistas que bloqueiam o acesso a essas zonas por parte de todas as pessoas exteriores à comunidade, e que também se certificam que os residentes cumprem a Sharia (a lei religiosa). No caso das mulheres, isso implica que só possam sair à rua devidamente cobertas.

Como as autoridades se têm mostrado muitas vezes incapazes de lidar com este fenómeno, a população não muçulmana, que já tende, em muitos casos, a olhar com suspeita para os imigrantes, reage com agressividade crescente à presença islâmica. As manifestações xenófobas aumentam em número e em participação.

Esta situação é especialmente grave em França, na Alemanha e na Grã-Bretanha, os países europeus que têm mais muçulmanos, mas também em estados mais pequenos e tradicionalmente liberais, como a Holanda e a Suécia, se verifica um aumento significativo do número de cidadãos que acha que há muçulmanos a mais e que está na hora de limitar os seus direitos. A construção de mesquitas e de outros edifícios ligados ao islamismo é cada vez mais contestada.

Na hora do voto, isto traduz-se no reforço dos partidos da extrema-direita, como é o caso da Frente Nacional francesa, a quem as sondagens atribuem pelo menos 20% do eleitorado. A incapacidade das democracias liberais em defender os seus próprios valores perante quem deles abusa para depois os combater acaba por fortalecer os extremismos – quer o islâmico, quer o da extrema-direita nacionalista e xenófoba.

Os governos europeus, e principalmente a grande maioria dos muçulmanos, que é pacífica e se procura integrar nas sociedades de acolhimento, têm de ser capazes de separar com mais firmeza “o trigo do joio”. A liberdade de expressão e de culto não pode ser usada para incentivar ações contra a vida e as liberdades das pessoas que professam uma religião diferente – ou até que não professam religião alguma.

O respeito pelos valores alheios nunca deve preceder o respeito pelos próprios valores. Isso tem sido por vezes esquecido na Europa e as consequências podem ser dramáticas.

Entretanto, no resto do Mundo…

Os ataques terroristas de Paris tiveram grande repercussão mundial e geraram uma enorme onda de repúdio, mas estão muito longe de ser os atos mais sangrentos cometidos por extremistas islâmicos nos últimos meses.

Poucos dias antes, no norte da Nigéria, o grupo Boko Haram arrasou a cidade de Baga e chacinou a população. Alguns cálculos indicam que morreram cerca de duas mil pessoas. Na mesma altura, duas meninas com cerca de 10 anos de idade foram usadas para transportar bombas, que detonaram em mercados cheios de gente, causando dezenas de mortes.

Na Síria e no Iraque, a situação é ainda pior, com o Estado Islâmico a controlar boa parte do território de ambos os países e a impor a Sharia com extrema violência e crueldade. O número total de vítimas é incerto, mas anda na casa das muitas dezenas de milhares. A grande maioria são muçulmanos, uma realidade muitas vezes esquecida quando se fala do extremismo islâmico.

A verdade é que, para cada europeu ou norte-americano que morre às mãos de extremistas islâmicos, há centenas de muçulmanos que passam pelo mesmo tormento.

Este post reproduz, com pequenas alterações, o artigo que escrevi para o número de Fevereiro de 2015 da revista “Família Cristã”.

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