Incursões russas: o império contra-ataca

Há mais de 20 anos que nada semelhante acontecia: em finais de outubro, bombardeiros russos, apoiados por aviões de reabastecimento, voaram muitos milhares de quilómetros até perto da costa portuguesa.

A situação repetiu-se duas vezes no espaço de poucos dias e, em ambos os casos, caças F-16 da Força Aérea Portuguesa interceptaram as aeronaves russas e escoltaram-nas até deixarem o espaço aéreo internacional que está sob responsabilidade portuguesa.

Em nenhuma das situações os bombardeiros entraram no espaço aéreo de Portugal propriamente dito, o que, se tivesse acontecido, seria uma grave violação das regras. Em última análise, num caso desses, os aviões russos até poderiam ser abatidos.

O que os Tupolev 95 fizeram não é ilegal, mas a verdade é que também não podemos classificar o seu voo como um passeio inocente. Os russos não comunicaram antecipadamente o que iriam fazer, não estabelecerem contacto com os controlos aéreos responsáveis pelas áreas que atravessaram (e lembre-se que contornaram toda a Europa Ocidental) e desligaram os dispositivos que permitem que os os aviões sejam mais facilmente detectados e identificados a partir de terra.

Em suma: este comportamento só pode ser qualificado como não amigável, tanto mais que surge na sequência de muitos casos semelhantes no norte da Europa. No último ano, o número de voos militares russos junto dos espaços aéreos de países como a Estónia, Letónia, Lituânia, Noruega, Suécia e Grã-Bretanha subiu de forma muito assinalável, atingindo níveis só vistos no tempo da União Soviética.

Em alguns casos, os aviões russos foram interceptados por caças portugueses que estão a cuidar da defesa aérea dos países bálticos. Lituânia, Letónia e Estónia têm forças aéreas muito reduzidas e, por isso, dependem dos seus parceiros da NATO para a fiscalização do seu espaço aéreo. Nos últimos quatro meses de 2014, o comando da força da Aliança Atlântica que tem essa tarefa coube precisamente a Portugal.

As incursões russas não se ficaram pelo ar. Também no mar se registaram situações deste tipo, e uma delas envolveu Portugal. Poucos dias depois de os bombardeiros Tupolev terem voado até junto da nossa costa, um navio hidrográfico da marinha russa, vindo do mar Mediterrâneo, entrou na Zona Económica Exclusiva (ZEE) portuguesa.

Tal como aconteceu com os aviões, o navio “Sibiryakov” também acabou por ser escoltado – no caso, por uma corveta da Armada – até abandonar a ZEE de Portugal. Como a embarcação não entrou em águas territoriais, nem efetuou, que se saiba, qualquer pesquisa na zona económica exclusiva, também aqui não há nenhuma ilegalidade a apontar.

Muito mais grave foi o que se passou na Suécia algumas semanas antes. Várias testemunhas indicaram ter visto um submarino nas águas costeiras próximas de Estocolmo, a capital do país. A marinha sueca mobilizou-se durante uma semana para encontrar esse submarino, mas sem sucesso. Todavia, recolheu dados suficientes para poder concluir que uma embarcação desse tipo esteve mesmo na zona indicada.

O governo de Moscovo desmentiu que tivesse alguma coisa a ver com o assunto, mas não restam grande dúvidas de que esse submarino seria russo. Durante a Guerra Fria, era habitual haver incursões do mesmo género por parte da marinha soviética.

O que se pode concluir de tudo isto? O que leva o presidente Vladimir Putin, quase 25 anos depois do fim da União Soviética, a querer replicar velhos hábitos comunistas?

Para além da necessidade meramente militar de testar as defesas e velocidade de reacção de um potencial inimigo, a resposta a esta pergunta tem mais duas componentes – uma estrutural e outra conjuntural. Por um lado, a intervenção militar russa na Ucrânia, que visa manter o país sob a esfera de influência de Moscovo, pode levar a Europa e os Estados Unidos a querer ajudar de forma mais activa o governo de Kiev. Com estas incursões, o governo russo passa uma mensagem clara: “Mantenham-se longe do nosso quintal” – e é assim que Moscovo vê a Ucrânia -, “senão teremos problemas”.

Do ponto de vista mais estrutural, as entradas russas no espaço aéreo e marítimo ocidental são um sinal de que a grande estratégia russa passa pela reconquista dos espaços de influência e das capacidades de acção que pertenciam à antiga União Soviética.

Para conseguir isso, Putin tem de neutralizar a oposição ocidental, especialmente a dos Estados Unidos. Ciente de que a Europa não tem capacidade, nem vontade de fazer uma oposição mais “musculada” aos seus planos na Europa de Leste, Putin sabe que uma postura mais agressiva pode, por enquanto, trazer-lhe mais benefícios do que prejuízos.

Incursões a longa distância das suas forças aéreas e navais são um meio relativamente barato e seguro de criar algum alarme entre populações e governos que se julgavam imunes a potenciais represálias russas. O objectivo último, claro está, é diluir cada vez mais a vontade dos europeus de travar novos avanços russos nas franjas do antigo império soviético.

Não é por acaso que países como a Polónia, que sabem exactamente o que é que significa fazer parte de um tal império, vêem com muito alarme o que se está a passar e clamem por uma tomada de posição mais agressiva por parte da União Europeia. Esse mesmo tem sido o discurso de Donald Tusk, o ex-primeiro-ministro polaco que acaba de assumir o cargo de presidente do Conselho Europeu.

Perante a incapacidade da política e da diplomacia para travarem os intuitos expansionistas russos, alguns países preparam-se para mudar de vida: a Suécia, por exemplo, depois de muitos anos de desinvestimento nas forças armadas, voltou a aumentar o orçamento para Defesa, e a Finlândia, um país historicamente neutro, começa a discutir a possibilidade de pedir adesão à NATO.

Tudo isto mostra que a situação no Leste da Europa está cada vez mais instável e perigosa. Se os países democráticos da Europa não se entenderem depressa sobre a melhor forma de enfrentar a política expansionista e agressiva da Rússia, Putin sentir-se-á encorajado a arriscar cada vez mais.

Até onde poderá ir, ninguém sabe. Talvez nem ele próprio.

Porquê Portugal? Porquê agora?

A notícia de que aviões militares russos (e mais tarde um navio) estiveram a poucas centenas de quilómetros da costa de Portugal causou, naturalmente, bastante admiração no país.

A pergunta que surgiu na mente de muitas pessoas, e também na comunicação social, foi se haveria alguma razão especial que justificasse esta visita.

Afinal, nem Portugal é propriamente uma grande potência militar, nem as nossas relações com a Rússia têm sido assim tão complicadas.

Tudo verdade, mas é preciso não esquecer que Portugal faz parte da NATO, a aliança que maiores obstáculos coloca aos planos de Vladimir Putin. As incursões aéreas e navais russas visam aquilatar até que ponto as defesas da NATO são eficazes e, simultaneamente, criar algum efeito psicológico nas populações locais que possa debilitar a capacidade dos governos para tomar acções contra a Rússia.

Há ainda uma outra possibilidade que pode ser considerada. O facto de Portugal ter liderado a missão de policiamento aéreo nos países bálticos durante a segunda metade de 2014, durante a qual aviões de combate portugueses procederam a várias intercepções de aeronaves russas, pode ter motivado o governo de Moscovo a enviar uma “mensagem” ao governo português que pode ser traduzida nesta simples fórmula: “Se vocês actuam militarmente junto às nossas fronteiras, nós também podemos fazer o mesmo junto às vossas”.

Este post transcreve com alterações mínimas o artigo que publiquei no número de Janeiro da revista “Família Cristã”.

2 responses

  1. Muito bom artigo, que explica ao comum cidadão o que se passou e o que poderá vir aí. Deixe-me, no entanto, fazer dois reparos: os países bálticos têem de facto forças aéreas. O que lhes falta é aeroaves de combate capazes de assegurar a própria defesa. A Estónia, por exemplo, opera 4 helis R-44, sobretudo para treino a apoio ao exército; 2 An-2 que serão substituidos por C-23 (as operações do Antonov incluem combate a fogos, transporte geral e treino de pilotos); e ainda 2 L-39 que serve sobretdo para treino de Controladores Aéreos Avançados, e de Fighter Controlers do CRP. Contudo, a principal missão da FA da Estónia é precisamente na parte de Detecção e Intercepção, mantendo várias Estações Radar, o CRP Ämari, e contribuindo, como os outros dois países, com pessoal para o CRC Karmelava, sito este na Lituânia.
    O outro reparo é que a FAP liderou o BAP durante os últimos quatro meses de 2014, e não seis como escreveu.

    1. Muito obrigado pelo seu comentário e pelos seus reparos, que incluirei numa actualização do artigo.

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