Antigamente é que era

Nos últimos anos tem-se discutido com regularidade nos Estados Unidos a possibilidade de reinstituir o serviço militar obrigatório (SMO). Os americanos, sempre mais atentos do que os europeus a essas questões, têm bem presente que umas forças armadas 100% profissionais são sempre um perigo potencial para qualquer democracia, e que o SMO é um meio muito eficaz de fortalecimento da coesão nacional.

William Pfaff juntou-se agora a este debate com um artigo no blogue da New York Review of Books, intitulado “Quando o Exército era Democrático”. Para ele, as Forças Armadas norte-americanas foram democráticas entre 1940 e 1971, o período em que vigorou o draft (SMO), porque foi nessa altura que toda a nação teve de dar os seus filhos às fileiras, independentemente do estatuto económico e social dos pais, ou até da cor dos mancebos.

É claro que esta visão peca por algum exagero, porque, como os portugueses sabem muito bem, onde há SMO, há sempre muita gente que tenta, e consegue, escapar-lhe – e normalmente são os mais ricos e/ou bem relacionados. Os Estados Unidos não são excepção a essa realidade; o que dá a impressão contrária, por vezes, é o caso atípico da 2.ª Guerra Mundial, em que houve uma mobilização geral dos recursos humanos e materiais do país para um conflito sobre o qual havia grande consenso nacional.

Quando a Guerra da Coreia chega, o draft é muito mais impopular (um livro como as “Pontes de Toko-ri”, de James Michener, mostra bem isso), e quando se chega ao Vietname, é-o muito mais ainda. William Pfaff diz, com razão, que “foi o Vietname que destruiu o serviço militar nacional”. A guerra era impopular e, no final da participação americana, o estado de prontidão e disciplina das forças armadas norte-americanas era terrível. Por isso, a hierarquia militar exigiu, e conseguiu, a profissionalização total dos efectivos.

A verdade é que, historicamente, os norte-americanos têm sido avessos à existência de forças armadas baseadas no modelo de obrigatoriedade, e mesmo quando o tiveram, foi quase sempre parcial: apenas uma parte dos mancebos em condições de cumprirem serviço o fazia efectivamente, sendo que a selecção era feita por sorteio e pelas várias dispensas que a lei permitia e Pfaff menciona. Aliás, na primeira vez que o Governo federal introduziu o sistema, durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), a reacção foi extremamente violenta: Nova Iorque, por exemplo, enfrentou os piores motins da sua história por causa do draft de 1863 (episódio popularizado pelo filme “Os Gangues de Nova Iorque”).

William Paff pode olhar para o “Exército Democrático” com algum saudosismo irrealista, mas acerta em cheio no que diz respeito à sua comparação com o actual exército profissional. Por isso, traduzo agora com a devida vénia o último parágrafo do seu artigo:

Até ao Vietname, o Exército dos Estados Unidos tinha sido um exército do povo. Quando o país pensava que tinha de travar uma guerra, recrutava um exército de cidadãos. Os cidadãos defendiam o país e as suas crenças, muitas vezes fazendo sacrifícios familiares e económicos para suportarem o esforço de guerra. Eles tornavam as guerras da América possíveis. Também as evitavam. O Exército era democrático e o Governo era compelido a reconhecer e a respeitar a vontade popular, e a vontade dos seus soldados civis e dos oficiais milicianos que o constituíam. O que foi fundamentalmente destruído no Vietname foi o Exército Democrático. O exército profissional de voluntários torna possíveis as guerras não democráticas, ideológicas na sua natureza e inspiração, e sem fim real aparente.

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