Espionagem electrónica para todos

Isto está mesmo a ficar estranho.

No passado, a coisa funcionava de maneira relativamente simples e clara: quando um governo queria espiar alguém, entregava a tarefa ao seu serviço secreto, que usava os seus agentes e alguns meios técnicos próprios nessa tarefa. Coisas simples, como máquinas fotográficas, equipamentos de escuta telefónica e aparelhos de localização. Havia um ou outro recurso mais modernaço e ousado, mas, no geral, os equipamentos tipo 007 ficavam mesmo pelo reinos da literatura e do cinema.

Com a popularização dos computadores e da Internet, a situação mudou muito. Primeiro, os governos (e não só) passaram a ter de vigiar muito mais do que conversas pessoais, telefones ou gavetas. A informática dá uma enorme flexibilidade às comunicações pessoais, bem como à produção e disseminação de conhecimento, informação e propaganda. Assim, é muito mais difícil para os estados saberem o que os seus cidadãos andam a fazer. No caso dos regimes ditatoriais, este problema agudiza-se porque, ao contrário do que acontecia no passado, as tecnologias mais avançadas já não são uma reserva das instituições estatais ou das grandes empresas.

Bem pelo contrário: especialmente nos países mais pequenos e menos desenvolvidos, verifica-se que a sociedade em geral está bem mais actualizada e activa no uso e desenvolvimento das tecnologias informáticas do que os estados.  Mesmo em países como os Estados Unidos e a China, que empenham enormes recursos nas áreas da segurança electrónica e da guerra de informação, muitos hackers e crackers mostram-se bem mais sofisticados e eficazes do que os serviços estatais que os tentam travar.

Assim sendo, em muitos casos aplica-se a velha máxima: se não podes vencê-los, junta-te a eles – ou, pelo menos, aproveita-te deles. A Síria parece ter feito precisamente isso, como é explicado neste artigo da Wired. Enquanto os estados mais ricos do Ocidente entregam fatias cada vez maiores da sua defesa a empresas privadas, os sírios , que não são tão abonados, simplesmente usaram uma aplicação gratuita, concebida por um programador francês, para espiar os computadores dos opositores ao regime de Assad.

Ferramentas como esta são abundantes, fáceis de encontrar e fáceis de usar. Por isso, não admira que os estados estejam a perder o monopólio da espionagem, e sejam cada vez mais espiados por cidadãos, organizações e empresas.

Na verdade, estamos a entrar numa era de democratização da espionagem electrónica. Quase todos podem espiar quase todos. Esperemos que não o queiram.

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