Paletes de espiões

Intelnews está sempre repleto de pequenas e grandes curiosidades que suscitam reflexão e escrita. Uma das últimas é esta: parece que a BBC, enquanto procurava informação sobre uma alegada chantagem cometida sobre o ex-primeiro-ministro britânico Edward Heath, encontrou documentos que provam que um antigo membro do governo, Raymond Mawby, trabalhou para os serviços secretos checoslovacos durante quase dez anos.

Esta notícia, a confirmar-se, vem mostrar mais uma vez que os serviços de informações do Bloco de Leste conseguiram infiltrar profundamente os aparelhos estatais de muitos países da NATO… e para nada (ou quase).

Haverá mais sobre isto à frente, mas primeiro quero contar um pequeno episódio pessoal que julgo relevante para o tema.

Há mais de vinte anos li um livro muito interessante, intitulado “Espiões e Espionagem”, do australiano Phillip Knightley, em que ele defendia tenazmente a ideia de que os serviços secretos eram, na grande maioria dos casos, organizações desajeitadas e incompetentes, cujo produto operacional raramente influenciava o curso da História. Knightley propunha no livro que o secretismo que envolve os serviços de informações serve essencialmente para encobrir os seus fracassos e exagerar, ou mesmo falsificar, os seus triunfos.

Na altura, ainda muito influenciado pelas ideias adolescentes do que é, e o que faz um serviço secreto, achei o livro irritante e exagerado nas suas conclusões. Fiquei com a sensação de que o autor tinha escolhido colocar-se no campo dos críticos profissionais dos serviços secretos e, a avaliar, pelas companhias que escolhe, por ali se mantém.

Agora, mais de vinte anos após essa leitura, vejo-me muito mais perto da opinião de Phillip Knightley, e nem sequer tenho de pensar naquilo que tem acontecido aos serviços de informações portugueses nos últimos anos.

O caso Mawby, e tantos, tantos outros, mostram invariavelmente uma coisa: o trabalho dos espiões pode causar enormes danos humanos, materiais e estratégicos a um país – e só muito ocasionalmente o faz -, mas nem assim define o resultado final de um conflito.

Por via até da sua muito maior abertura, as democracias ocidentais foram terreno fértil para os recrutadores do KGB e serviços associados, que assim obtiveram acesso aos mais altos segredos dos seus alvos.

Em vão: de nada serviram, porque numa democracia forte há muito mais centros de poder e actores que numa ditadura. Não há uma pessoa, uma instituição, um segredo que possa deitá-la abaixo. Por muitos espiões que haja para as converter, infiltrar ou roubar.

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